livroCom o título original de “Victorian Secrets: What a Corset Taught Me about the Past, the Present, and Myself”, esse livro que foi publicado em novembro de 2013 pela Skyhorse Publishin (e ainda não tem previsão de tradução em português ou lançamento no Brasil), e conta a história de como a autora transformou seu corpo, seu estilo de vestir e seu estilo de vida para o de uma mulher vitoriana, e como ela passou a entender não só as principais diferenças entre as culturas do vigésimo primeiro século e a América do século XIX, mas como ela via a si mesma.

Depois de ter ganhado, indesejadamente, um corpete de seu marido quando tinha 29 anos, Sarah Chrisman conta como aquela peça antiquada mudou sua vida. Após se aprofundar na moda da era vitoriana, ela começou a se vestir exclusivamente como se vivesse no século 19, e depois, ela e seu marido começaram a viver como se estivessem na era vitoriana, em 2009: eles se banham com jarra e bacia, costuram à mão suas roupas a partir de fibras naturais, não usam carro e usam lâmpadas a óleo para iluminar sua casa vitoriana. Para cozinhar, Sarah usa um livro de receitas do século XIX, e embora ainda usem uma geladeira, pretendem futuramente comprar uma caixa de gelo para ficar ainda mais autêntica.  Ela é massago-terapeuta, e seu marido, Gabriel, que fez Mestrado em Biblioteconomia e Ciência da Informação na Universidade de Washington, trabalha em uma bicicletaria local e numa livraria. A falta de fala do marido e sua feição nem sempre muito feliz nas fotos já geraram comentários de até que ponto Gabriel realmente aprova esse estilo de vida. Sobre isso, ele comentou que ele e sua esposa amam história, e que se divertem muito ao experimentar novas formas de enriqueceram suas vidas. No entanto, eles ainda usa telefone residencial e luzes elétricas: tecnicamente, os inventores Elisha Gray e Alexander Graham Bell projetaram o telefone em 1870, e a primeira oferta pública de eletricidade foi fornecida no final de 1881, quando as ruas de Godalming no Reino Unido foram iluminadas com luz elétrica. “Não podemos viajar no tempo, embora nós ainda tentemos”, disse Sarah.

Sarah e seu marido, Gabriel, posam para uma foto com suas bicicletas de mais de cem anos.
Sarah e seu marido, Gabriel, posam para uma foto com suas bicicletas de mais de cem anos.

Embora o livro sobre a vida de Sarah possa ser incrível, a recepção de seu livro não o foi. Se fizermos uma média dos 30 comentários mais curtidos desse primeiro site, por volta de apenas 40% viram o livro como legal e interessante. Os pontos positivos mais vistos é que a autora faz um ponto interessante sobre quão bem nós aceitamos a diversidade, e que tendemos a reagir com desconfiança e julgamentos em relação à pessoas cujos estilos de vida não se encaixam nas nossas. No entanto, muitos ficaram chocados ao ver como a autora falava de pessoas que cometeram deslizes acidentais contra ela durante sua jornada: ela se refere a um motorista de ônibus bem-intenciado mas ignorante que acidentalmente arrancou um plissado de sua saia que, como ela já havia dito, estava meio solto, como um ‘selvagem’ e com um sotaque ‘das classes baixas do sul”;  como se o motorista tivesse sido mal-intencionado e tivesse decidido por si só destruir o seu vestido, ao invés de apenas tentá-la ajudar a subir no ônibus. Ela também chama uma mulher mais velha que necessitava usar um banheiro que ela estava usando com termos depreciativos e desdenhosamente zomba de pessoas que se vestem com roupas do século 19 de forma menos historicamente correta. Dessa forma, alguns leitores podem ter dificuldades em se identificar com o narrador.

Sarah usa um vestido inspirado em Fay Fuller, a primeira mulher a escalar o Monte Rainier.
Sarah usa um vestido inspirado em Fay Fuller, a primeira mulher a escalar o Monte Rainier.

Enquanto alguns leitores sentiram dificuldade em terminar de ler o livro, outros discorrem sobre como Sarah é uma boa escritora e tem jeito com as palavras, mas a sua atitude de desprezo para com qualquer um que não fosse o seu marido. Outra passagem que levantou críticas foi quando ela disse que comprou uma saia para tentar aprender a andar de novo, após ter se recuperado de um pé quebrado e ter tido que usar botas ortopédicas – lendo isso, alguns se sentiram ofendidos por aqueles que realmente passaram por lesões traumáticas e tiveram que passar meses ou anos de fisioterapia literalmente tendo que aprender a andar de novo.

Também foi criticado o fato de que ao mesmo tempo que Sarah fala sobre como é chato ter tanta atenção, ela fala sobre o quanto gosta de mostrar seu corpo em roupas vitorianas, e como, ao longo dos anos, sua cintura vai ficando cada vez menor por conta do uso dos corpetes. No entanto, a maioria dos leitores concordou que as suas descrições do seu processo de pesquisa e como ela procurava para aprender sobre as verdades dos espartilhos: ela se lembra de como foi ensinada de que as mulheres quebravam suas costelas para caber em espartilhos, mas que isso não é verdade; e que médicos e estudantes falavam sobre a veracidade disso, mas que é improcedente: as mulheres quebravam as costelas do seu espartilho – isso é, a sustentação dele, geralmente feito de ossos de animais -, mas não as suas próprias costelas. Suas descrições de como seu corpo mudou e como sua saúde melhorou dentro de um período relativamente curto de tempo também é fascinante, e nos faz perguntar como nossos corpos reagiriam ao usar um espartilho o tempo todo.

“O passado é um país estrangeiro: eles fazem as coisas de forma diferente lá. No entanto, os países estrangeiros têm embaixadores e diplomatas para falar por eles. O passado é muito menos capaz de se defender: ele não pode formular refutações. Talvez seja por isso que é uma vítima tão fácil. Assim, se tornou um parecer comum que tudo sobre o presente é superior a qualquer coisa que existia no passado. É difícil para muitas pessoas compreenderem que os estilos de vida poderiam ser diferentes no passado, e ainda assim serem completamente satisfatório para aqueles que viviam nele. A História não tem emissários”.

Página 178, tradução minha.

Sarah Chrisman.
Sarah Chrisman.

A escritora também dá uma visão idealizada da vida da mulher no período vitoriano – certamente é um exagero grosseiro dizer que as mulheres tinham vidas igualitárias e felizes, que não enfrentavam a opressão, não tinham problemas sociais e tinham vidas invejáveis. Ela criou uma versão imaginária e perfeita do período vitoriano, reproduz-se e veste-se como se estivesse nele, mas ataca as pessoas que lhe chamam a atenção para a realidade. Em determinados momentos, parece que ela terá um ataque de birra: ela não consegue comprar as roupas que quer, seu marido tem que ir para a aula ao invés de ficar vestindo ela, ela quer viver numa cidade que não existe, vai ter um evento incrível e desconhecido que ela quer ir, mas ninguém quer levá-la… Resumidamente, esse é um livro sobre uma mulher que redescobriu sua vida de um ângulo diferente, indo ao passado para ver quais lições de vida podem ser aprendidas. Mas como um efeito colateral do livro, você tem que ler sobre uma mulher que tem desprezo por, bem, quase todo mundo.

 

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