escondidaBebês podem ser insaciavelmente fotogênicos, mas de alguma forma eles não entendem realmente todo o processo da fotografia: eles assustam com o flash, se contorcem, choram, piscam, dormem, babam. Quando você finalmente consegue colocá-los em uma posição boa, eles caem de cabeça. Se isso já é ruim hoje, era pior antes. Um pai do século 19 teria que vestir seu bebê todo engomado e levá-lo, talvez junto com seus irmãos, ao estúdio de fotografia mais próximo, subir vários lances de escada, organizar a família e pedir que todos permanecessem completamente imóveis por 30 segundos. Depois, pagar uma grande soma de dinheiro e esperar vários dias até ver a foto ser feita, e então pagar mais um pouco pelas cópias para serem mandadas aos amigos e familiares.

O principal problema era o tempo de exposição. Uma fotografia poderia levar até meio minuto para ser tirada, e a pessoa teria que ficar completamente imóvel. O pior seria para um bebê: a mãe teria que estar minimamente perto para acalmá-lo – isso porque muitas pessoas queriam uma foto só do bebê. Então, a mãe se escondia na foto.

Obviamente, outras leituras podem ser feitas: com o apagamento da mãe, podemos ver o lugar da mulher na sociedade patriarcal, onde ela é figurada sem uma identidade própria, ou a negação do pai no interesse da legibilidade da criança. Também podemos ver como um reflexo de um dos instintos básicos da maternidade: negar a si mesma em deferência à crianças.

Ou, simplesmente, podemos ver que as mães optavam por ser esconder a fim de imortalizar uma criança. Ás vezes, é óbvio onde ela está: em pé ao lado de uma cadeira, atrás de uma cortina, ou coberta com um pano. Para um observador do século 21, as fotos podem parecer bizarras e facilmente risíveis.

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Essas mães escondidas podem ser discernidas no fundo de cada um desses retratos, e as imagens mantém um certo grau de comédia – ainda que não intencional – porque o espectador é convidado a suspender sua descrença para não ver a figura escondida. Em algumas fotos, realmente, é difícil ver a mãe oculta do retrato, mas para outros, a figura escondida poderia ser uma parte essencial da imagem: com as altas taxas de mortalidade, a mãe escondida poderia mostrar para o observador que a criança estava viva e, portanto, precisou ser segurada pela mãe. Sabe-se que a fotografia de crianças mortas era extremamente comum – fotografia póstuma poderia ser a única lembrança que os pais poderiam ter de seu filho.

Em alguns casos, ainda, o rosto das mães foram riscados completamente. Embora isso possa parecer sinistro, temos que nos advertir de uma leitura sensível em uma imagem que tem até 150 anos de idade. Hoje, nós usaríamos Photoshop para nos livrar de pessoas que não queríamos que aparecesse. Mas para os fotógrafos que trabalhavam naquele período, a única opção era apagar o rosto com tinta ou um objeto pontiagudo. O que hoje pode parecer para nós um ato intencional de destruição, era uma tentativa desajeitada de deixar a foto como se queria.

O historiador Mark Osterman, que foi um pioneiro no avivamento em técnicas fotográficas antigas, disse que havia muitos fotógrafos especializados apenas em fotos de bebês e idosos. Pessoas mais velhas poderiam ser instáveis, mal-humoradas e difíceis de lidar, assim como os bebês. Por isso, os fotógrafos precisavam de muita paciência. Inclusive, muitos desses fotógrafos eram mulheres: por volta de 1860, a fotografia tornou-se uma das poucas profissões consideradas respeitáveis para uma mulher de classe média: entre 1861 e 1871, o número de fotógrafas quadruplicou.

Desenhos de um estúdio de fotografia mostram como tirar uma foto de um bebê com uma mãe escondida.

Tanto fotógrafos quanto fotógrafas se tornaram hábeis em manter os bebês parados por bem ou por mal. Alguns usavam animais para fixar sua atenção – por isso mantinham macacos ou pássaros em seu estúdio, enquanto outros recorriam a química, com o uso de ópio. Por conta da demora da tirada da foto, quase nenhum bebê sorri: isso porque a criança deveria ficar sorrindo por, no mínimo, 15 segundos.

Reunidas em conjunto, essas imagens de mães escondidas, simultaneamente ausentes e presentes, ilustram algo que ressoa até hoje: disfarçada como poltronas, se escondendo atrás de pilares ou agachadas no tapete, essas figuras fantasmagóricas lembram-nos do caminho que todos nós, independente da idade ou circunstância, continuamos a sermos guiados pela reconfortante compreensão materna.

Bibliografia:
The lady vanishes: Victorian photography’s hidden mothers“, de Bella Bathurst;
The Hidden Mothers of the Victorian Era“, de Rozena Crossman;
These Victorian Baby Pictures Are Filled With Hidden People“, de John Brownlee;
Nagler The Hidden Mother” de Linda Fregni;
Early Victorian family portraits and the disappearing mother“, de Kathryn Hughes.

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