Era Vitoriana

Primeiro site brasileiro dedicado ao período Vitoriano, datado de 1837 a 1901.

PT Barnum: a reinvenção das belezas circassianas e a moda do cabelo afro no século 19

circassiana

“Beleza circassiana” é um termo usado para se referir a uma imagem idealizada das mulheres que viviam no norte do Cáucaso (ou Caucásia) – isto é, entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, perto Rússia. Acreditava-se que as mulheres circassianas – aquelas que viviam na Circássia, uma região do norte do Cáucaso – eram extraordinariamente bonitas, espirituosas e elegantes. Na década de 1860, o showman PT Barnum exibia mulheres que ele alegava serem da Circássia. Mas elas eram diferentes: usavam o cabelo em estilo afro, que logo foi copiada por outras artistas do sexo feminino.

Na verdade, essas mulheres exibidas por Barnum eram apenas mulheres do interior dos Estados Unidos que tinham uma aparência mais exótica, e quase sempre adotavam um nome que começava com a letra Z, como Zublia Aggolia, Zalumma Agra ou Zolutia Aggie. Mas porque essas mulheres eram tão famosas no século 19? A História explica: uma série de batalhas estavam ocorrendo entre a Rússia e a Circássia desde 1763, com a derrota do povo circassiano em 1864. Precisamente quando os circassianos de verdade estavam sofrendo uma limpeza étnica em sua terra natal (acredita-se que mais de 600 mil circassianos morreram para expulsar os russos de sua região), todos estavam comentando sobre isso. Então Barnum aproveitou a deixa, apresentando as lindas mulheres provenientes deste local (só que não).

Performance Aggie Zolutia.

Uma performance albina, Aggie Zolutia.

Além disso, os circassianos já tinham ficado mundialmente famosos em 1775, quando o naturalista alemão Johann Friedrich Blumenbach publicou uma obra em que iniciava a divisão dos seres humanos em cinco ‘raças’ distintas, definidas por cor e região: os caucasianos ou a raça ‘branca’; a Mongólia ou a raça ‘amarela’; os Malyan ou a raça ‘marrom’; os etíopes ou a raça ‘negra’; e os norte-americanos ou a raça ‘vermelha’. De acordo com Blumenbach, a raça branca tinha se originado na região do Cáucaso, e todas as outras raças humanas brancas haviam sido derivados dessa fonte original. Cem anos mais tarde, por volta de 1870, essa identificação dos circassianos como os representantes perfeitos da brancura tomaram conta da imaginação dos Estados Unidos.

Inicialmente, para tentarmos salvar a reputação de Barnum, ele realmente tentou mostrar mulheres de belezas circassianas – ao tentar entrar ilegalmente no mercado de escravos de Istambul. Falhando em sua tentativa, Barnum passou a procurar mulheres que poderiam se passar por circassianas. Ele inventou um tipo de roupa para essas senhoras, que logo foram copiados em circos de todo o país. As regras para escolher uma mulher eram simples: ela tinha que ser bonita para os padrões vitorianos, deveria usar roupa exóticas (geralmente mais reveladoras do que as usadas pelas mulheres européias e americanas), exibiria jóias e colares impressionantes, além de um cabelo enorme – também invenção de Barnum. O cabelo deveria ser lavado com cerveja, para ficar uma nuvem crespa que se assemelha ao “black power” dos anos de 1960 e 1970. Vale a pena notar que as mulheres reais circassianas não pareciam em nada com as mulheres de Barnum.

Veja abaixo alguns retratos de mulheres realmente circassianas do século 19:

circassianas (1) circassianas (2) circassianas (3)

A fama que as falsas mulheres circassianas provocaram pode ser explicada de forma relativamente simples: se as circassianas eram a forma mais primordial da raça branca e, portanto, os exemplares mais puros e belos da brancura, como era possível que ela estivessem sujeitas ao tráfico de escravos do Império Otomano? A idéia de que uma mulher branca poderia ser vendida como escrava, onde ela seria marcada como um objeto sexual, era uma questão tanto e horror quanto de fascínio para os americanos brancos.

O mito da beleza circassiana e sua escravidão sexual foi mais divulgado quando o filósofo Voltaire escreveu sobre elas em suas cartas publicadas entre 1726 e 1729:

Os circassianos são pobres, e as suas filhas são lindas, e, na verdade, é nelas que reside principalmente o comércio. Elas forram com suas belezas os serralhos do sultão turco, e de todos aqueles que são ricos o suficiente para comprar e manter tal preciosa mercadoria. Essas moças são muito honrosas e virtuosamente instruída em como agradar e acariciar os homens, são ensinadas a fazer uma dança muito educada e feminina, e aumentam, com artifícios voluptuosos, os prazeres de seus senhores desdenhosos…

O cabelo afro das fingidas circassianas é realmente algo digno de nota. Não tendo nada a ver como a forma que as mulheres reais circassianas usavam o cabelo, os cabelos crespos nos retratos das performances era completamente artifical. Notavelmente, o movimento afro da década de 1960 foi em grande parte um movimento de rebelião contra a norma, até então seguida por muitos negros, de deixar o cabelo como os brancos usavam. Dessa forma, os circassianos faziam o inverso: crespavam o cabelo para parecerem mais com os outros, enquanto ainda permaneciam identificavelmente brancos. O cabelo selvagem evocava o exotismo, servia para marcar que essa mulher, embora fosse inteiramente branca, era diferente. Ou seja, a forma mais primordial e bonita da raça branca tinha a juba selvagem dos africanos.

Veja foto de outras mulheres performances circassianas:

circassianas (4) circassianas (3) circassianas (5)
circassianas (7) circassianas (8) circassianas (2)
circassianas (6) circassianas (1) circassianas (1)
Bibliografia:
François Marie Arouet de Voltaire (1694–1778). Letters on the English.The Harvard Classics. 1909–14.“,
Circassian Beauties“,
Circassian beauties“,
A Freakish Whiteness: The Circassian Lady and the Caucasian Fantasy“, por Gregory Fried.
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10 comentários em “PT Barnum: a reinvenção das belezas circassianas e a moda do cabelo afro no século 19

  1. Sueli Castaneda
    18 de outubro de 2015

    Eu acho que não era todas pessoas daquele seculo 19 , usava o cabelo sim .

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    • Maria Helena
      18 de outubro de 2015

      Não era mesmo. Está explicado no artigo.

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  2. Juliana Dantas
    18 de outubro de 2015

    Gente branca
    w
    h
    y
    E ainda tem o extra sobre como “caucasiano” é um termo nojento

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  3. Patrícia Ferreira
    22 de novembro de 2015

    “Tudo se copia” ou ” Tudo retorna”. Black Power de época. 🙂

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  4. Raíssa Matos
    25 de novembro de 2015

    Mas, gente, bem que essa moda podia pegar atualmente!

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  5. Ada Maria
    19 de dezembro de 2015

    Muito boa esta postagem, me fez pesquisar sobre a Circássia, região sobre a qual nunca tinha ouvido falar e sobre vários outros assuntos.

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  6. Jessica Oliveira Romanov
    20 de dezembro de 2015

    Depois desse post eu tenho certeza q nasci no século errado kkkkk

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  7. Pepa Mon
    20 de dezembro de 2015

    Aquí tenemos el testimonio gráfico, de que todo era posible en indumentaria a recrear. Por un momento imaginar que aparezco vestida de moda Natural ( que es la que lleva la mujer) con ese pelo crespo en un evento, por ejemplo en el museo del Traje. Creeis que saldrían voces reprochando mi poco interés en ser una buena recreadora.
    Yo salvo excepciones que se ven, de personas que llevan disfraces, entre otras cosas por que les dá la gana y no tengo nada que objetar, del resto no pongo la mano en el fuego de que esto o aquello no se llevaba.

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    • Inma Cedeño
      20 de dezembro de 2015

      Pepa Mon, no tienes que explicar nada. Yo hace tiempo que averigüe que todo es posible en la historia de la moda y no me apetece perder el tiempo con gente que se cree que sabe más que nadie o que simplemente tienen unas vidas tan aburridas que tienen que dedicarse a criticar a los demás, o unos egos como una catedral y se creen superiores al resto. Pienso que hoy en día para que todos crezcamos como personas y en la vida laboral debemos compartir, colaborar y hacer trueques pero hay gente que sigue pensado que somos competencia unos de otros y no es así. Gracias a Dios cada uno es especial en algo y hay que aprender precisamente de eso e intentar enriquecerse de la variedad. A mi puede no gustarme una cosa o no estar de acuerdo pero siempre pienso que si lo que vas decir no es más bello que el silencio mejor cállate.

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      • Pepa Mon
        20 de dezembro de 2015

        Veo cuadros y fotos que alucinó en colores, lo otro es agua pasada, pero una amiga de faceta lo ha compartido y me he quedado muerta de risa.

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