varney

O livro “Varney o Vampiro”, tem sido descrito como o pior livro do século 19. Introduzido em 1845, a série concluída consiste em mais de 600 mil palavras de diálogo tedioso, sem uma trama concisa, repetições enlouquecedoras mas, ao mesmo tempo, boa o suficiente para inspirar Bram Stoker, Anne Rice, Stephen King, Russell T. Davies e Freidrich Wilhelm Murnau, se tornando então uma das histórias de vampiros mais influentes que ninguém leu.

A nova edição, lançada em 2007. A história nunca foi traduzida para o português.
A nova edição, lançada em 2007. A história nunca foi traduzida para o português.

Com 876 páginas, a edição original do livro era dividida em 220 capítulos. Lançada originalmente como uma série semanal, o livro foi impresso em um volume completo em 1847. Em 2007, uma editora americana publicou uma versão nova da história, corrigindo erros de ortográfia e composição, incluindo uma introdução detalhada, notas explicativas, ilustrações originais e uma análise crítica. O terrível estilo de publicação de Varney é compreensível se vemos o contexto: no século 19, as taxas de alfabetização aumentaram drasticamente na Grã-Bretanha, levando a uma enorme demanda por livros acessíveis. Os romances tradicionais e clássicos estavam fora da faxa de preço da classe mais pobre, e os editores levantaram-se para preencher esse vazio publicando livros conhecidos como Penny Dreadful: histórias semanais de baixa qualidade, que poderiam ser comprados por um penny,  geralmente de terror e ação.

Isso levou a um crescimento sem precedentes de autores e autoras, que muitas vezes ficavam à mercê do mercado consumista de Penny Dreaful: se a demanda caía para um título em especial, ele simplesmente era parado de ser publicado sem nenhuma explicação especial aos leitores ou aos autores (muito parecido com as séries de televisão de hoje…). Mas se um título era um sucesso, o seu editor poderia prolongar indefinidamente sua história, mesmo sem a intenção ou autorização do autor. Por isso, um conto que poderia ter só 10 ou 15 capítulos poderia ser esticado para até 200 ou mais. Esse, provavelmente, foi o caso de Varney.

Varney reune muitas características identificáveis como vampirescas hoje: ele tem um comportamento aristocrático e pode manipular com destreza suas vítimas, mas não é bonito ou sedutor: tem um longo nariz, pele amarelada, presas salientes, longas unhas e olhos misteriosos – são as características que influenciaram a criação de Nosferatu.

varney 2Ele se alimenta descuidadamente, com suas vítimas gritando enquanto sangram assustadoramente, com ele mordendo seus braços ou pescoços. Dotado de alguma força e agilidade, ele não é vulnerável à luz do sol, alho ou cruzes, mas pode ser morto por qualquer coisa que mataria um mortal comum. A sua imortalidade não consiste em uma invulnerabilidade física, mas na capacidade de seu corpo de se regenerar à luz da lua. A única coisa que pode matar Varney é a água, um símbolo do perdão.

Varney, no entanto, é carismático. Ele faz atos maus, mas é assombrado por eles e é atormentado pela sua própria existência. A descrição de um vampiro simpático não foi mais utilizada no século 19 e só seria trabalhada nos livros de Anne Rice. O próprio Varney é motivado por apetites distintamente humanos, como riqueza e mulheres.

Criado por James Malcom Rymer, Varney foi um personagem complexo, profundamente perverso e monstruoso, mas também honroso e que poderia mostrar remorso. Nenhum outro vampiro do século 19 se aproximou dessa complexidade. O legado de Rymer não consiste em uma obra prima de horror literário, mas nas sementes que sua horrível obra deixou: inspiração para os autores que viriam.

Bibliografia:
Varney the Vampire; or, The Feast of Blood“,
James Malcolm Rymer’s Varney the Vampire“.
Anúncios