Cena do filme "Hysteria", de 2011.
Cena do filme “Hysteria”, de 2011.

Mencione vibradores, e a maioria das pessoas pensa imediatamente no prazer sexual das mulheres. E não é de se admirar: estima-se que um terço das mulheres americanas adultas possuem um. Mas, ironicamente, o prazer sexual das mulheres era a coisa mais distante da mente dos médicos que inventaram vibradores há quase duzendos anos atrás: eles estavam cansados de masturbar as mulheres.

De 2011, o filme “Hysteria” explica exatamente essa situação, embora com erros históricos. No período vitoriano, uma classe especial de médicos se dedicava a masturbar as mulheres aplicando óleo vegetal nos órgãos genitais e massageando-os com um ou dos dedos contra o clitóris, provocando orgasmos. Mas isso não era chamado de orgasmos, pois nesse período histórico acreditava-se que as mulheres eram incapazes de ter sentimentos sexuais. O nome usado na época era “paroxismo”.

Vibrador de 1864.
Vibrador de 1864.

Os médicos estavam interessados em um dispositivo que poderia economizar tempo e poupar suas mãos e dedos da fadiga do fluxo constante de mulheres do século 19 que sofriam de “histeria”, uma doença vagamente definida hoje como frustração sexual. Isso porque até o século 20, homens americanos e europeus – incluindo os médicos – acreditavam que as mulheres não sentiam desejo sexual ou prazer: elas eram apenas recipientes para a luxúria do sexo masculino. Não surpreendetemente, essas crenças deixavam um número enorme de mulheres sexualmente frustradas, que reclamavam para os médicos de ansiedade, insônia, irritabilidade, nervosismo, umidade entre as pernas e fantasias eróticas.

Voltando ao filme, ele conta a história do Dr. Mortimer Granville Joseph, que patenteou o primeiro vibrador como forma de induzir orgasmos mais rapidamente em pacientes do sexo feminino. Acreditava-se que os “paroxismos histéricos”, ou seja, os orgasmos, aliviavam temporariamente os sintomas da histeria. As críticas do filme variam, entre outras, que 25 anos antes de Granville, em 1858, um médico chamado Isaac Baker criou um instrumento para masturbar mulheres em seu escritório em Londres. Baker argumentava que a manipulação profissional do clitóris curava a histeria, mas isso só piorava o problema, porque as mulheres continuavam voltando, cada vez mais frequentemente, para receber tratamento. Para ele, a única solução eficaz era a retirada cirúrgica do clitóris.

[Depois do tratamento] as mulheres antes intratáveis se tornam esposas felizes; rebeldes adolescentes se acomodam no seio de sua família; e as mulheres casadas anteiormente avessas aos direitos sexuais engravidavam.

Isaac Baker.

Felizmente, o doutor Baker foi logo desacreditado por seus colegas ginecologistas, embora o procedimento cirúrgico tenha sobrevivido a sua morte. Já em 1886, médicos norte-americanso passaram a retirar o clitóris de mulheres para evitar a histeria e a masturbação.

Em uma cena do filme, o doutor Mortimer testa sua invenção.
Em uma cena do filme, o doutor Granville testa sua invenção.

É aí que surge Dr. Granville, o herói do filme.  A necessidade é a mãe da invenção, e desde o início de 1800, médicos lamentavam em revistas que suas mãos e dedos ficavam quase paralisados por conta do tantos de tratamentos que precisavam fornecer para as mulheres. Por isso, foram inventados uma série de engenhocas para masssagens genitais, entre eles aparelhos conduzidos com água e até mesmo vibradores movidos à vapor. No final do século, a eletricidade entrara nos lares americanos, e os primeiros aparelhos elétricos apareceram. E em 1880, mais de uma década antes da invenção do ferro elétrico e do aspirador de pó, o empreendedor inglês Mortimer patentou o vibrador eletromecânico.

Os vibradores originais, vindos de Granville, eram concebidos exclusivamente para serem usados em consultórios médicos, por médicos, para fornecer não só uma rápida, mas uma intensa “paradoxismo” do que uma mulher poderia conseguir por conta própria. Enquanto alguns se queixavam que as mulheres poderiam se tornar viciadas, o vício era exatamente o que os inventores queriam. Isso não só garantia que as mulheres mais ricas voltassem ao consultório, mas o monopólio médico foi concebido para tornar a masturbação solitária com a mão insatisfatória em comparação com o invento.

 No filme, a empregada Molly limpa um vibrador.

No filme, a empregada Molly limpa um vibrador. Infelizmente, fotografias de vibradores vitorianos são escassas.

Mas essa atitude não era tomada porque eles estavam em uma espécie de cruzada anti-prazer ou anti-sexo, mas porque os orgasmos eram eram considerados realmente importante para os vitorianos. Desde o Renascimento se afirmava que um relacionamento sexual satisfatório deixava a mulher mais propensa a engravidar, e guias continham passagens detalhadas sobre as preliminares. No entanto, não eram todos (na verdade, muito poucos) que tinham acesso a esse livros e guias. Também é estranho pensar que uma mulher seria levada ao orgasmo com um dispostivo que girava e fazia barulho, mas isso fazia parte, como quase tudo no período vitoriano, de um duplo padrão de aceitamento.

Embora o filme mostre diversas mulheres recebendo vibradores (inclusive a Rainha), o monopólio acabou somente em 1902, quando a empresa americana Hamilton Beach passou a comercializar um vibrador mecânico para uso doméstico.

Nas propagandas, os vibradores eram mostrados como fazendo massagem nos rostos e braços, para disfarçar seu propósito.
Nas propagandas, os vibradores eram mostrados como fazendo massagem nos rostos e braços, para disfarçar seu propósito.

No entanto, fazer os vibradores socialmente aceitáveis eram inconcebíveis, então o seu real propósito era disfarçado. Eles eram vendidos e chamados como “massageadores pessoais”, embora todo mundo soubesse o que isso significava. Uma propaganda de 1903 apresenta o seu massageador como “Um companheiro delicioso… que vai pulsar dentro de você”. Mas os vibradores não durariam muito. A pornografia começou a surgir, e os vibradoras a serem usados nesses filmes. Eles desapareciam lentamente, e até na década de 1970 já eram difíceis de encontrar.

Bibliografia:
Vibrators and Clitoridectomies: How Victorian Doctors Took Control of Women’s Orgasms“, por Hugo Schwyzer,
“Hysteria” and the Strange History of Vibrators“, por Michael Castleman,
No, no, no! Victorians didn’t invent the vibrator“, por Fern Riddell
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