O século 19 é um dos séculos mais populares em termos de novela época, perdendo somente para o século XX. Temos diversas produções brasileiras que abordaram esse século, e nessa primeira parte do artigo, veremos novelas cujas tramas se passavam até a década de 1870; no próximo artigo, serão abordadas as novelas que se passavam no final do século XIX. Os figurinos, assim como a cenografia, é fundamental para que embarquemos na viagem proposta pela trama. Por isso, serão analisados nesses artigos o figurino proposto em dez novelas brasileiras: “A moreninha”, “O Noviço”, “Memorial de Maria Moura”, “A Cabana do Pai Tomás”, “Força de um Desejo”, “O Guarani”, “Helena”, “Maria, Maria” e “A Rainha Louca”.

A Moreninha (1965, 1975)

Adaptação do livro de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1844, a história adaptada pela Rede Globo em 1965 se passava no Rio de Janeiro do século XIX. A produção da novela tentou ao máximo reconstituir a época, com figurinos e cenários, com os diálogos também tentando reproduzir a linguagem do século XIX. Os atores principais eram Marília Pêra e Cláudio Marzo.

Dez anos depois, em 1975, a novela foi regravada, mas a reconstituição da época foi de mais de vinte anos depois, se passando em 1866. Tendo como atores principais Nívea Maria e Augusto Mário Cardoso, foi um grande sucesso, embora sem muitas informações de figurino.

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O Noviço (1975)

Exibida no horário das 18h pela Rede Globo em 1975, a novela é baseada na peça de mesmo nome escrita por Martins Pena em 1845 e publicada como livro em 1853. Passada no Rio de Janeiro, a trama conta a história do vigarista Ambrósio, que corteja a viúva Florência pensando em sua herança, tratando de tirar seus herdeiros do caminho. Seu sobrinho de criação, Carlos, se torna noviço, mas não tem vocação e inferniza a vida dos padres, namorando Emília.

O figurinista Arlindo Rodrigues realizou uma ampla pesquisa de época para retratar os costumes e o comportamento de uma família do século XIX, quando o Rio de Janeiro ainda era sede da corte. Supostamente, a história se passa em 1844, embora a maioria dos figurinos lembre muito mais a cintura do Império, de décadas antes.

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Memorial de Maria Moura (1974)

Situando-se em meados de 1850, no sertão, o romance conta a história de Maria Moura, baseando-se no romance de mesmo nome de Rachel de Queiroz, publicado em 1992. Indo contra as normas estabelecidas por um sistema patriarcal, a protagonista faz de tudo por sua liberdade, sendo leal com as que a apoiam e cruel com seus adversários – chegando até mesmo a mandar executar o homem que amou ao descobrir que ele a traiu. Para reforçar a coragem da personagem, vestes masculinas como blusas de algodão e calças foram mais usados pela personagem principal. Talvez por conta disso, os figurinos que são mostrados fora da trama principal são um tanto quanto confusos, não se encaixando necessariamente na época ditada pela trama.

Jorge Baumann/ Jackson Antunes e Cristiana Oliveira
Jorge Baumann/ Jackson Antunes e Cristiana Oliveira

"Memorial de Maria Moura".
“Memorial de Maria Moura”.

Sérgio Britto e Rosamaria Murtinho.
Sérgio Britto e Rosamaria Murtinho.

"Memorial de Maria Moura".
“Memorial de Maria Moura”.

Bia Seidl e Kadu Moliterno.
Bia Seidl e Kadu Moliterno.

 Marcos Palmeira
Marcos Palmeira
A Cabana do Pai Tomás (1969)

Baseado no romance “Uncle Tom’s Cabine”, de Harriet Beecher Stowe e publicado em 1852, a história mostra o conflito entre os escravos norte-americanos plantadores de algodão e os ricos proprietários de terra no sul do país. Foi a primeira novela com uma protagonista negra. A produção foi complicada: na semana antes da estréia, os estúdios da Globo em São Paulo pegaram fogo, e as gravações foram mudadas para o Rio de Janeiro: “Os atores e a equipe foram colocados em ônibus para o Rio no mesmo dia do incêndio, pois precisávamos gravar o capítulo do dia seguinte”, contou Ruth de Souza.

A técnica de blackface utilizada pelo ator Sérgio Cardoso para viver um negro causou controvérsia e polêmica. O ator ainda interpretou dois personagens diferentes na novela: Dimitrius e Abraham Lincoln. A novela não obteve o sucesso inesperado, e essa foi uma das últimas novelas com temática distante da realidade brasileira. A Cabana do Pai Tomás foi extremamente cara: 150 trajes de época foram confeccionados por 40 costureiros, com cada um custando 500 cruzeiros novos e dezenas de metros de renda.

Sérgio Cardoso (Tomás) e Ruth de Souza (Cloé)
Sérgio Cardoso (Tomás) e Ruth de Souza (Cloé)

"A Cabana do Pai Tomás".
“A Cabana do Pai Tomás”.

"A Cabana do Pai Tomás"
“A Cabana do Pai Tomás”

"A Cabana do Pai Tomás".
“A Cabana do Pai Tomás”.

Maria Luiza Castelli em A Cabana do Pai Tomás.
Maria Luiza Castelli em A Cabana do Pai Tomás.

Maria Luiza Castelli com Sérgio Cardoso.
Maria Luiza Castelli com Sérgio Cardoso.
Força de um Desejo (1999)

Ambientado na segunda metade do século XIX no Rio de Janeiro, a novela “Força de um Desejo”  foi exibida entre 1999 e 2000. Recorrendo a consultores externos como fonte de pesquisa, a figurista Bet Filipecki contou com a colaboração da pesquisadora Clarisse Fukelman para retratar a época. Com base na informação de que as damas da época se vestiam de branco (como consta nos romances de José de Alencar), a figurinista vestia a personagem Ester (Malu Mader) baseando-se em Sissi, a Imperatriz da Áustria.

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A caracterização dos atores ficou por conta de Marlene Moura, que repartiu ao meio o cabelo das atrizes, junto de apliques e  colocou a costeletas nos homens. Vestidos pesados e maquiagens em tons pastéis foram utilizados pelas mulheres, e no final, foram utilizados 3 mil metros de tecidos de linho, tafetá, seda pura e fibras naturais para os figurinos da novela.

O Guarani (1991, 1996)

Minissérie produzida pela Rede Globo, era baseado no romance de José de Alencar publicado em 1857. Aparentemente sem muito comprometimento com o figurino, as poucas fotos disponíveis mostram apenas Angélica, então com 18 anos, que foi uma das protagonistas.

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Cinco anos depois, em 1996, O Guarani virou filme, embora também não há muitas informações ou fotografias à respeito; mas o que se pode ver das imagens mostra que essa regravação se passava em meados de 1500.

Helena (1975)

Exibida pela Rede Globo em 1975, foi baseada na obra de mesmo nome de Machado de Assis, publicada em 1876. Ambientada no Rio de Janeiro de 1859, a trama começa com a leitura do testamento do conselheiro do Vale, que surpreende a todos ao deixar parte da herança para Helena, até então uma filha desconhecida. Com apenas 20 capítulos, a novela teve os cenários e os figurinos criados por Arlindo Rodrigues.

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“Helena”

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“Helena”

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“Helena”

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“Helena”

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Maria, Maria (1978)

Ambientada no século XIX, a novela era baseada na obra Maria Dusá, escrita por Lindolfo Rocha em 1910, e se iniciava em 1860. A história se desenrolava nas localidades de Lagoa Seca, Mucujê, Passagem e Xique-Xique, região do garimpo, e Ana Maria Magalhães fez uma pesquisa histórica e um levantamento detalhado da vida social, dos costumes, vestimentas e religiosidade do nordeste no século XIX.

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A Rainha Louca (1967)

A história de passa no México, no período em que Napoleão III interveio no país, ou seja, entre 1862 e 1867, e também é inspirada na obra Memórias de um Médico, de Alexandre Dumas, publicado entre 1846 e 1853. Com 215 episódios, a novela relatava a história de Maximiliano de Habsburgo, o imperador francês no México, e sua esposa Charlotte. Nos porões do palácio, vivia a Marquesa, uma simpática mendiga que protegia o romance secreto entre o nobre Xavier Montenegro, a quem chamava de “Bonitão”, e uma camponesa. Enquanto isso, o plebeu Robledo cortejava Maria de las Mercês.

Cenas externas foram gravadas no México, complementadas por filmagens feitas no Parque Lage, no Rio de Janeiro. Com os figurinos de Arlindo Rodrigues, a novela ganhou o prêmio de Melhor Guarda-Roupa da extinta TV Excelsior.

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a rainha louca (1) A RAINHA LOUCA Rainha louca
Bibliografia:
ARRUDA, Lilian. Entre tramas, rendas e fuxicos: o figurino na teledramaturgia da TV Globo. Globo Livros, 2007. “Força de um desejo“, “A Casa das Sete Mulheres“, “Moreninha 1965“, “Novela Maria Maria 1978“, “O Noviço“, “O Noviço – Trama Principal“, “O Noviço“, “Memorial de Maria Moura“, “Os 35 anos de A Cabana do Pai Tomás, que teve uma protagonista negra“, “A Cabana do Pai Tomás“, “A Análise de Plínio Marcos sobre a Adaptação de A Cabana do Pai Tomás“, “Helena“, “Helena – Vamos Recordar“, “A Rainha Louca“, “A Rainha Louca“.
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