Era Vitoriana

Primeiro site brasileiro dedicado ao período Vitoriano, datado de 1837 a 1901.

A vida das mulheres imigrantes chinesas nos Estados Unidos do século 19

Mulheres chinesas no Golden Gate Park, 1890.

Mulheres chinesas no Golden Gate Park, 1890.

A primeira mulher imigrante chinesa nos EUA, Afong Moy, foi trazida para Nova York em 1834 como um modelo para satisfazer a curiosidade do público americano. Chamada pelo jornal New York Daily como “Julia Foochee Ching-chang King”, a jovem de dezenove anos era exibida comendo com hashi e falando chinês. Um intérprete ajudava os espectadores a comunicar-se com ela. Ela ficou nos Estados Unidos até 1850, sendo exibida em Nova York e encontrando-se com o presidente Andrew Jackson.

A partir de meados do século 19 e início do século 20, devido ao Ato de Exclusão Chinesa de 1882 e muitas legislações discriminatórias, as mulheres chinesas só poderiam entrar nos Estados Unidos como filhas ou esposas de comerciantes ou cidadãos norte-americanos. Dessa forma, durante todo o período de imigração irrestrita (1850 – 1882), um total de apenas 8.848 mulheres chinesas viajaram através do Pacífico.

Em 1850, havia apenas 7 mulheres chinesas para cada 4018 homens chineses em São Francisco, e em 1855, as mulheres constituíam apenas 2% da população total chinesa da América.  Muitas não conseguiam suportar os rigores da vida na América e morriam, ou voltavam para a China. Durante o mesmo período, o número de homens chineses que foram a a América era muito maior.

Afong Moy em seu quarto. Ela está cercada de itens chineses "exóticos".

Afong Moy em seu quarto. Ela está cercada de itens chineses “exóticos”.

Em parte por necessidade cultural e por uma resposta ao preconceito racial, a maioria das mulheres chinesas viviam em pequenas comunidades segregadas, as chamadas “Chinatown”, que eram vistas como locais de amizades profundas, adoração e trabalho. As primeiras Chinatown foram estabelecidas nas cidades de Seattle, Sacramento, Nova York e São Francisco.

Sem ajuda do governo, a maioria das Chinatown eram casas de materiais baratos de dois andares, sem esgoto. Entre o início da década de 1850, a era da febre do ouro, e na virada do século, autoridades locais americanas expulsaram chineses e chinesas das Chinatown – muitos eram colocados em barcos a vapor e enviados para São Francisco.

Por conta do costume chinês de que as mulheres deveriam ficar em casa para cuidar de seus maridos e filhos, e também porque não conseguiam aprender a língua, as mulheres imigrantes raramente trabalhavam fora de suas casas, e para subsidiar o baixo salário de seus maridos elas faziam trabalhos em casa, como costura, lavar, descascar camarão, enrolar charutos, etc. As mulheres que viviam em áreas rurais remotas tinham uma vida ainda mais difícil.

Devido a proibição de casamentos mistos (chineses com mulheres americanas ou chinesas com homens americanos), muitas chinesas iam para a América como prostitutas. Algumas eram sequestradas, atraídas ou compradas dos lugares pobres da China e vendidas para a América com lucros elevados. Em 1870, 61% das 3.536 mulheres chinesas que viviam na Califórnia  eram prostitutas.

A presença das prostituas chinesas logo foi reconhecida pelos americanos, que viam a prostituição como prova da imoralidade dos chineses e da repressão de suas mulheres por conta de seus valores culturais patriarcais. Sob a combinação de legislações anti-prostituição e resgates, o número de prostitutas chinesas diminuiu drasticamente em 1870, e em 1880 apenas 24% das 3.171 mulheres chinesas da Califórnia eram prostitutas.

Em 1800, as interações sexuais de imigrantes chineses eram rigidamente controladas por leis de imigração e segregação. Os japoneses, muito sensíveis à sua imagem nacional, começaram a tomar medidas contra a prostituição japonesa, pois o governo passou a se preocupar que os Estados Unidos passassem a fazer um movimento de exclusão semelhante.

Mulher desconhecida posa para uma foto no século XIX.

Mulher desconhecida posa para uma foto no século XIX.

Muitos homens chineses tinham medo de trazer sua esposa ou família para os Estados Unidos, por conta da violência racial a que se encontravam sujeitos. Um crescente sentimento anti-chinês se instalou na América, e assim como hoje, o maior produto interno da China era a mão-de-obra abundante, considerada dócil de se trabalhar e até mesmo servil. Contra isso, no início do século 20 a Federação Americana do Trabalho informou que “a ameaça do trabalho degradado asiático é uma questão muito grave”, e que era fazer um trabalho para excluir os chineses do mercado de trabalho.

A impressão, nascida em meados do século XIX, que todas as mulheres chinesas nos Estados Unidos eram prostitutas coloriu as percepções públicas das mulheres asiáticas hoje, que são vistas como objetos sexuais submissos, que trabalham em casas de massagens, bordéis ou bares de strip. As imagens negativas das prostitutas chinesas no período vitoriano pode ser visto como tendo definido uma tendência que impacta as mulheres americanas asiáticas e imigrantes asiáticas nos Estados Unidos mesmo hoje, no século XXI.

Bibliografia:
The Life experiences of chinese imigrant woman in the US“, por Wei Chi Poon. Acesso em 1 de outubro de 2015.
Chinese Women Relax in Golden Gate Park“. Acesso em 1 de outubro de 2015.
Prostitution in the Earlv Chinese Community, 1850-1900“, por Mohini Sridharan. Acesso em 1 de outubro de 2015.
Victorian and Edwardian views of China“. Acesso em 1 de outubro de 2015.
Women in Early Chinatowns“. Acesso em 1 de outubro de 2015.

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2 comentários em “A vida das mulheres imigrantes chinesas nos Estados Unidos do século 19

  1. Letícia Gomes
    6 de abril de 2016

    Esse post me foi muito necessário. Estou com muitas dificuldades para achar a historia de imigrantes asiáticos nos EUA e Europa antes do século XX, quando acho é sempre sobre trafico de ópio e menos sobre as outras razões. Vai me ajudar bastante em meu livro ter mais informação alem das pouquissimas que achei ♡

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