Casal homossexual do século 19, identidades e data exata desconhecidas.
Casal homossexual do século 19, identidades e data exata desconhecidas.

Os costumes sexuais da Inglaterra vitoriana permitiam poucos debates públicos sobre a homossexualidade fora das áreas jurídicas e médicas. No início do século, quando a afetividade homossexual era vista quase exclusivamente como um crime ou pecado, os homens que se envolviam sexualmente com outros eram frequentemente rotulados como ‘sodomitas’, ‘invertidos’ ou ‘uranistas’ – cada termo refletia uma concepção diferente do desejo pelo mesmo sexo. Essa variedade de rótulos consolidou na ‘homossexualidade’ apenas em 1895, depois o julgamento de Oscar Wilde por suas ligações com outros homens.

No início, a palavra ‘homossexual’ expressava uma noção, em grande parte médica, do desejo sexual, tendo sido usada primeiramente pelo médico suíço Karoly Benkert em 1869. Através dos esforços de Benkert e outros sexólogos, uma pequena parcela da população entendia a homossexualidade como sendo inerente ao indivíduo, uma característica que englobava mas também superava os atos sexuais. Ou seja, no século 19 algumas pessoas já tinham uma visão da homossexualidade como parte inerente de uma pessoa – uma visão que temos (ou tentamos ter) hoje no século 21.

Um site ironiza o fato de que chihuahuas já eram preferidos por casais homossexuais no século 19.
Um site ironiza o fato de que chihuahuas já eram preferidos por casais homossexuais no século 19.

Laços de amizade entre homens eram aceitos de forma estranha à cultura do século 19. Escritores não hesitavam em criar personagens com laços fortes a outros personagens masculinos, com uma conexão emocional profunda a outro homem. Essas relações do mesmo sexo enchiam a literatura vitoriana, sem nunca levar a acusação de homossexualidade. Essas descrições poderiam mascarar o desejo físico, e era necessário um disfarce para evitar a condenação social e jurídica, tanto no romance quanto na vida real.

A lei americana e britânica mantiveram uma condenação veemente aos homossexuais no primeiro terço do século 19, quando homens iam para a forca por atividade sexuais com outros homens quase todos os anos. Isso acabou apenas em 1861, quando a pena de morte foi abolida e substituída por prisão perpétua. Um dos casos mais proeminentes de homossexualidade em 1880 que causou uma indignação nacional foi em 1880, quando mais de 38 homens vestidos de mulheres foram presos. Ironicamente, no entanto, o caso entrou em colapso porque a maioria dos homens eram de classe média, e podiam pagar por bons advogados, propina ou poderiam fugir.

O Direito Penal de 1885, destinado a reduzir a prostituição heterossexual, redefiniu as medidas contra sodomia e homossexuais: um criminoso condenado por sodomia receberia um mínimo de dez anos, um ofensor poderia receber no máximo dez anos por “tentativa de sodomia”, e um “atentado violento ao pudor” poderia ser condenado a dois anos de trabalho forçado. Nenhuma dessas leis se dirigia ao lesbianismo, que era considerado demasiado inimaginável ou impronunciável.

O principal problema quando considerados a moralidade sexual vitoriana, no entanto, é a pobreza de linguagem da época, que tinha dificuldades em conceituar ou condenar a diversidade sexual: o conceito de homens gays não existia popularmente na Inglaterra Vitoriana, porque não existiam palavras para descrevê-la. Ou seja, um homem poderia ser condenado por praticar (ou querer praticar) sexo com outro homem, mas isso seria reduzido às ações terminantemente práticas. Embora fosse entendido, pelo menos por uma pequena porção da sociedade, que um homem poderia amar outro homem, não haviam palavras para descrever tal situação, pois a sociedade tinha atitudes ‘respeitáveis’ que proibiam a publicação de estudiosos ou romances que justificassem ou contextualizassem o sexo homossexual, como as obras de Symonds e Edward Carpenter.

Casal gay em 1894.
Casal em 1894.

Pode parecer complicado, mas isso encaixava nos padrões duplos do século 19. Ou seja, eles podem até parecer tolerantes, mas isso porque não possuíam fortes pontos de vista sobre um assunto que eles poderiam observar, mas não tinham informações e nem liberdade para discutir. Podemos concluir que os vitorianos eram mais tolerantes do que seus homólogos de 1960 com relação as relações sexuais entre homens, mas dado o policiamento estrito do conhecimento e até mesmo a linguagem usada para discutir tais comportamentos íntimos, devemos perguntar o que realmente significa ‘tolerância’.

Bibliografia:
The Victorians’ surprisingly liberal attitude towards gay men“, por Emma McFarnon
Homosexuality in Nineteenth-Century Literature,
Secret’s out on the hidden life of gay Victorians”, por Yakub Qureshi.
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