Era Vitoriana

Primeiro site brasileiro dedicado ao período Vitoriano, datado de 1837 a 1901.

A deficiência no período vitoriano: Surdos e Mudos

rainha vitória surd

Imagem mostrando a Rainha Vitória usando a língua de sinais para se comunicar com uma mulher surda. 1889.

Primeiramente, devemos fazer a notável separação ente pessoas surdas e mudas: uma pessoa muda não é necessariamente surda, da mesma forma que a pessoa surda não é necessariamente muda. Atualmente, pessoas mudas usam a linguagem de sinais apenas para poder se comunicar com os outros, pois podem ouvir o que elas dizem. Em contrapartida, os surdos usam a língua de sinais para poder se comunicarem entre si, e podem frequentar fonoaudiólogos para aprenderem a falar.

Sem dúvida os surdos começaram a receber maiores atenção e sensibilidade a partir do século XVII, mas muitos dos primeiros médicos estavam preocupados principalmente com a alma de seus pacientes. Sabia-se que poderia ser ensinado para eles o nome de pessoas ou objetos. Mas como eles entenderiam os conceitos de pecado e eternidade? Seria apenas no século 18 que Charles-Michel de L’Épée, conhecido como “Pai dos Surdos”, perceberia que eles não necessitavam de uma língua, pois eles já tinham uma: a linguagem caseira de sinais, muitas vezes com sinais inventados em casa. O que era necessário era a expansão desse código. No século XIX, a variante da língua de sinais dominou a França e os Estados Unidos. Mas não a Grã-Bretanha.

A educação das crianças surdas no século XX e início do século XIX nas terras da Rainha era dominada pela utilização do sistema “oral”, ou a formação de crianças surdas em falar e ler lábios. Esse “triunfo da oralidade” tinha sido aprovada pelo Congresso Internacional da Educação dos Surdos em Milão em 1880, pois a linguagem gestual ou língua de sinais em público era um assunto controverso na Grã-Bretanha vitoriana, pois ela era entendida de uma forma múltipla e contraditória: eram objetos de fascínio e repulsa, de importância científica e interesses literário, considerados o único modo de comunicação humana e um vestígio de uma herança bestial.

rainha vitoria

“Royal Condescension”, por William Agnew, em 1889.

Ao mesmo tempo, a própria rainha Vitória usava a língua de sinais porque sua nora, a Princesa de Gales (mais tarde a Rainha Alexandra, esposa de Eduardo VII) era surda desde a sua adolescência. Além da imagem famosa que está no topo deste artigo, a imagem ao lado, que mostra a Rainha Vitória sentada fazendo sinais com a sua mão, também é conhecida. A mulher de pé é Bective Grover, que deixou seu marido por conta de sua crueldade. Ela era muda e surda, e morava com seus pais. Em 1874, a Rainha visitou essa mulher e teve grande prazer em tentar aliviar sua dor conversando com ela por meio do “alfabeto de dedo”. A própria Rainha corroborou com esta história, mas disse que ela não era muito proficiente na língua.

Obviamente, o fato da Rainha usar a linguagem dos surdos e se recusar, de acordo com alguns relatos, trazer um tradutor, foi extremamente favorável às campanhas contra a educação exclusivamente oral, pois se a própria monarca falava a língua dos sinais, por que ela deveria ser um problema?

Mesmo assim, no mesmo ano a Comissão Real em 1889 revelou que o sistema manual era usado em 22 instituições, o sistema manual e oral era usado em 48, mas o sistema oral sozinho era usado em 507 instituições na Grã-Bretanha. Dessa forma, era muito mais fácil para um surdo vitoriano que fosse oralizado se comunicar com outros, pois teria aprendido a falar, do que um mudo se comunicar, pois a língua de sinais não era bem vista e dificilmente era ensinada.

No entanto, ao contrário do que mostram as estatísticas, um relatório de 1909 declarou que as autoridades não tinham fé no valor do ensino oral como um meio de comunicação.

Manual da linguagem gestual dos surdos de 1896. Notem que muitos sinais são idênticos aos sinais usados na língua brasileira de sinais.

Manual da linguagem gestual dos surdos de 1896. Notem que muitos sinais são idênticos aos sinais usados na língua brasileira de sinais.

Provas fornecidas por Benjamin Payne à Comissão Real de Cegos, Surdos e Idiotas (pessoas com problemas mentais) em 1889 sugere que adaptar meninos e meninas para a confecção liderava a lista de profissões para surdos e mudos, mas muitas famílias pobres enviavam seus filhos e filhas para Institucional Cambrian para Surdos e Idiotas ou a Instituição do Sul de Gales para o Cegos, onde eles também aprendiam a costurar. Em uma visita a Cambrian em 1898, Adelaide Parkins falou especificamente sobre a ênfase na costura:

“Eles fazem todos os seus próprios bordados e ajudam a fazer seus próprios vestidos, mas também são ensinados a fazerem trabalhos intricados, malharia e tecelagem”.

Os jovens não ficavam presos nas Instituições: um relatório anual de 1894 escrito por uma menina de 12 anos fala sobre como ela foi ao parque e como sua colega levou sua bota a um sapateiro, sugerindo que os alunos poderiam experimentar uma vida fora das paredes da Instituição. Além disso, tira-se a conclusão óbvia que os internos eram ensinados a ler e a escrever.

O Colégio Vitoriano para Surdos funciona até hoje.

O Colégio Vitoriano para Surdos funciona até hoje.

Em 16 de Fevereiro de 1859, uma carta foi escrita apelando ajuda para as crianças surdas na Austrália. Depois de diversas cartas trocadas, em 12 de Novembro de 1860 foi inaugurada a “Victorian Deaf and Dumb Institution”, ou a Instituição Vitoriana para Surdos e Idiotas. O número de alunos crescia a cada ano e tiveram que se mudar três vezes, em 1861, 1862 e 1864. Em 1865, o Governo fez a doação de terreno e o icônico prédio de pedras azuis foi construído e inaugurado em 1866. É válido mencionar que Sr. Frederick John Rose, seu fundador e primeiro diretor, era um homem educado surdo, e um modelo para os estudantes. WD Cook escreveu no século 19 sobre a metodologia de ensino:

“Nosso programa de ensino é abrangente e é substancialmente aprovado na maioria das escola para surdos em outras partes do mundo. O objeto principal de nosso ensino é dar aos alunos uma compreensão prática e domínio do idioma inglês, e na construção deste fim nós empregados os melhores meios ao nosso alcance… Em nenhum caso a formação oral é transmitida com o sacrifício do desenvolvimento intelectual. Os sinais gestuais e a ortografia manual é ocasionalmente utilizada como auxiliares e suplementos no ensino, embora quando os alunos avançam para graus mais elevados, a comunicação entre professor e estudante é realizado quase que inteiramente através de leitura labial e de expressão”.

Alunos e professores do Colégio Vitoriano para Surdos.

Alunos e professores do Colégio Vitoriano para Surdos.

Os intelectuais da língua eram fascinados com os surdos. A linguagem primitiva, usada por eles, era influenciada pelo sexo, por exemplo? Um antropólogo do sexo feminino do século XIX afirmava que as mulheres surdas e mudas inclinavam a cabeça submissamente para dizer “sim”, enquanto os homens davam um olhar penetrante e faziam um sinal com a cabeça. Outros especulavam que essa linguagem natural poderia ser comunicável com a de outros povos: em 1870, um coronel do exército americano chamado Garrick Mallery chegou a conclusão, ao estudar os índios nativo americano surdos, que eles facilmente poderiam se comunicar com os surdos e mudos brancos.

Bibliografia:
Reading Victorian Deafness — 2013“, de Jennifer Esmail
Victorian College for the Deaf“,
Deaf artist William Agnew“,
Royal Condescension“,
“‘Likely to conduce to the happiness and advantage of the inmates’? – Victorian Education for Deaf Children“,
The Victorians thought that deaf meant dumb. A sign of the times?“, de Linda Colley
1860 to 1910“.
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12 comentários em “A deficiência no período vitoriano: Surdos e Mudos

  1. Jessica Torres
    12 de julho de 2016

    Que material excelente! ❤ Pessoal se vcs puderem postar algo sobre as escolas estadunidenses no período vitoriano, eu agradeço muito mesmo! ❤

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    • Maria Helena
      12 de julho de 2016

      Obrigada! Meu próximo passo é deficiência física e mental, e depois vejo sobre as escolas “”comuns”” rsrs 🙂

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  2. Melissa Do Couto
    12 de julho de 2016

    Parabéns pelo texto.

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  3. Fabiane Paixão
    12 de julho de 2016

    Otimo artigo!! Adorei! 😉

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  4. Samira Cathy Heathcliff
    12 de julho de 2016

    Nossa, to fazendo um curso on line que falou disso!!

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  5. Natalia Malagueta
    12 de julho de 2016

    Oi! Tô no segundo ano de Fono e adorei o texto! Adoro sua pag!

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  6. Mariama Antero
    13 de julho de 2016

    Lindo. E como era feito com educação de cegos?

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    • Maria Helena
      13 de julho de 2016

      Será o próximo artigo 😉 mas já existia o sistema braille.

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  7. Adélia Martins Lage
    14 de julho de 2016

    Ainda agora a deficiência não é vista com mto bons olhos! Embora dessem atenção no periodo vitoriano!

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