Era Vitoriana

Primeiro site brasileiro dedicado ao período Vitoriano, datado de 1837 a 1901.

A surpreendente história da exposição de cães vitorianos e sua repercussão na popularidade dos animais

A primeira mostra de cachorros, em 28 e 29 de junho de 1859 em Newcastle-upon-Tyne, era apenas uma adição a tradicional mostra de gados anuais. Apenas raças esportivas foram mostradas e os ganhadores receberam armas como prêmio. Foi um pequeno começo do que seria, até o final do século, um passatempo muito popular, pois o cachorro passaria a ser moda em todas as classes da sociedade, o que teria enormes implicações para a reprodução canina.

O primeiro show que incluiria raças não-esportivas foi realizado em Birmingham no mesmo ano, e foi um sucesso tão grande que um ano mais tarde o cachorro ganhador correu na primeira Exposição Canina Nacional (National Dog Show), que houveram 267 cachorros em 42 classes. O organizador principal foi Richard Brailsford, um guarda-caça do Conde de Derby, líder da oposição conservadora e três vezes primeiro-ministro. O cachorro do Conde, Juno, ganhou um prêmio em 1862, mostrando a rapidez com que a mostra de cães ganhou a elite do país, tornando o cachorro um animal elegante e respeitável. Até o final da década de 1860, a Exposição Canina Nacional atrairia mais de 700 cães e 20 mil visitantes.

O fenômeno chegou a Londres em 1862, com o primeiro show em Islington. Em 1863, uma extravagante exposição aconteceu em Chelsea, com 100 mil vistantes, incluindo o Príncipe de Gales. Em todo o país, exposições começaram a ser feitas, cada um com suas características peculiares. Em Manchester, por exemplo, os cães compartilharam a ribalta com aves. Os eventos eram de qualidade variável, e por isso em 1873 foi criado o Kennel Club, para regularizar esses shows. Um de seus fundadores era JH Walsh, que tinha sido juiz no primeiro show em 1859.

Cães saindo do seu trailer em Manchester.

Cães saindo do seu trailer em Manchester.

O primeiro show organizado pelo clube foi no Crystal Palace em 1873, que se tornou um local previlegiado, junto de um segundo show no Palácio de Alexandra em Londres. Obviamente, nessa altura os melhores shows já exigiam uma organização profissional para garantir a ordem, a justiça e o lucro.

O primeiro empresário-gerente desse tipo de exposição foi John Douglas, embora esse fosse ultrapassado posteriormente por Charles Cruft, conhecido também como Barnum. Cruft entrou no mundo dos cães como o gerente geral da Spratt’s Patent Limites: venda de biscoito de cães para proprietários aristocráticos e associações com clubes de raças. Cruft viu que o potencial dos cães poderia promover seus negócios mais ainda, e em 1878 ele organizou o primeiro show em paris chamado L’Exposition Universelle. Em seguida, ele foi para Glasgow, Edimburgo e Bruxelas. Cruft ainda inventou vagões especiais.

Até a década de 1890, o Kennel Club fazia mais de 40 shows licenciados, e Cruft era desprezado pelo Club e seus principais criadores – ele oferecia instalações precárias para os proprietários e seus animais e exagerava no número de cães para atrair a cobertura de notícias. Nesse momento, os shows eram frequentados por todas as classes, desde a realeza, a classe média e a classe trabalhadora respeitável. O aumento do número de raças garantia que havia tipos de shows que cabiam em qualquer orçamento.

Cães e seus donos chegam para uma exibição em Londres, em 1865.

Como qualquer competição, os juízes sempre foram motivo de discussão. Eles não eram mais inclinados a escolherem amigos ou colegas de trabalho? Não poderiam ser comprados por proprietários inescrupulosos? Embora o maior prêmio fosse o prestígio e reconhecimento, alguns shows ainda davam prêmios em dinheiro. Os próprios donos de cães fraudavam a identidade de seus cães com o corte de orelhas, rabos ou até colorir o seu pêlo de forma a deixá-lo parecido com uma raça superior.

Mais importantes eram os critérios de julgamento: até 1859, os cães eram julgados pela sua forma e aparência, ao invés de suas habilidades. Inclusive, haviam reclamações que a qualidade dos cães ingleses estava em declínio porque os criadores procuravam por “bons pescoços, ossos e pés” ao invés de “inteligência, um bom nariz, e resistência”. A solução encontrada foi o sistema de “pontos”, isso é, uma lista de características desejáveis para um cão, como altura mínima, forma da cabeça, etc.

O Kennel Club também foi questionado sobre o bem-estar dos cães. Proprietários informaram que alguns shows eram centros de contágio, espalhando pulgas e a temida cinomose. Assim, companhias sanitárias passaram a ser importantes patrocinadoras. Como se espera de um evento assim, também haviam relatos de cães que escapavam de suas coleiras ou que, ficando confinados a espaços pequenos, produziam ruídos intermináveis.

Exemplar de medalhas dadas ao vencedor.

Exemplar de medalhas dadas ao vencedor.

Para validar os pedigrees e identidades, o Club estabeleceu um Stud Book, em que os proprietários iriam gravar a linhagem de seus cães ou canis. Depois de 1880, este se tornou o registro nacional de pedrigrees, e se tornou um elemento importante na compra e venda de cães. O Kennel Club também se tornou o árbitro de raças e padrões: desde a década de 1860, havia uma proliferação de raças desconhecidas, com novos tipos vindo de diversos locais e sub-divisões de raças, assim como o renascimento de raças ‘extintas’, a ‘fabricação’ de novas e ‘importações’. Ao mesmo tempo, a melhoria de raças era controversas: enquanto havia alguma aprovação para maior regularidade de raças, muitos se queixavam que as normas eram definidas por motivos arbitrários, sem a preocupação com a saúde ou utilidade do animal. Ou seja, as raças estavam mudando, mas nem sempre para melhor.

cãoAs exposições de cães se tornaram um fenômeno da Era Vitoriana, que se espalhou da Grã-Bretanha para o redor do mundo. A estréia americana começou em 1877. O show apelava ao público como forma de entretenimento e se tornaram símbolos da reprodução canina progressiva e da propriedade. Exibição mostram cães atravessaram as fronteiras de gênero e classe, permitindo a todos participarem na competição. Claro que isso mudou a vida dos cães: eles passaram a ser  classificados e parte de uma hierarquia, que era um reflexo da sociedade estrutural vitoriana. Eles fizeram com que os cães caíssem na moda, acelerando a tendência de tratar o cão como um companheiro doméstico.

Traduzido e adaptado do artigo “The surprising history of Victorian dog shows” escrito por Neil Pemberton e Michael Worboys.
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4 comentários em “A surpreendente história da exposição de cães vitorianos e sua repercussão na popularidade dos animais

  1. Anônimo
    9 de agosto de 2016

    Muito bom💜💜💜

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  2. Daisyslaine
    9 de agosto de 2016

    Muito bom

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  3. Aline
    13 de agosto de 2016

    Olá Maria, eu sei que meu comentario não tem nada aver com o post mas, eu gostaria que você escrevese sobre a vida intima de casais do século xix, e um assunto que me chama muita atenção, tentei procurar mas tem poucos artigos sobre isso, e ainda tenho desconfiança de entrar em certos sites, gostaria de ler um post nem que seja pequeno sobre o assunto. Em uma entrevista a Marina Ruy Barbosa ela disse que seu trisavô Ruy Barbosa e sua esposa eram pessoas afrente do seu tempo, dormiam no mesmo quarto e na mesma cama em uma época em que casais dormiam em quartos separados. Gostaria muito que você me respondesse mesmo que seja uma resposta negativa 😦 bjs Ah e me perdoe se esse comentario aparece mais de uma vez, faz tempo que estou tentando comentar mas nunca consigo envia-lo.

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    • Maria Helena
      16 de agosto de 2016

      Oi Aline! Como eu comentei na página do Facebook, todos os comentários da página têm que ser previamente aprovados por mim, por isso que nenhum comentário seu tinha sido publicado ainda 😉 Quanto à sua pergunta. Nos tempos medievais e renascentistas, principalmente a classe alta tinha quartos para a esposa e para o marido, e eles só dormiam juntos quando iam transar. Como a classe pobre não tinha dinheiro para ter o luxo de dois quartos separados, todo mundo dormia junto mesmo. Nas classes altas, isso acontecia porque muitas vezes os casamentos eram arranjados, mas não necessariamente depois do coito a esposa ainda dormia junto de seu marido. Essa relação do casal e da cama não é muito estudada, até porque não tem muita evidência histórica para isso (os vitorianos raramente escreviam sobre gravidez, poucos ainda escreviam sobre sexo e detalhes íntimos de sua vida). Muita gente acredita que não tem nada a ver e que no período vitoriano os casais já dormiam juntos; e que os casais só eram mostrados em camas separadas em filmes e novelas porque antigamente tinha uma censura muito forte quanto à mostrar casais juntos (dê uma olhada no filme Hitchcock, de 2012, e você vai entender o que estou querendo dizer).

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Publicado às 8 de agosto de 2016 por em Sem categoria e marcado , , , , , , , .

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