Fotografia de luto, 1878.
Fotografia de luto, 1878.

Durante o século 19, a Grã-Bretanha começou a ver o surgimento de uma classe média financeiramente estável e, com ela, uma melhor expectativa de vida. As mortes precoces eram vistas cada vez mais como eventos trágicos e merecedores de um luto em grande e elaborada escala. O funeral e o luto foram práticas mais ritualizadas quando o marido da Rainha Vitória, o Príncipe Albert, morreu. Ela entrou em luto profundo pelo resto de sua vida e criou um precedente que muitos de seus súditos britânicos seguiam.

Roupas de luto eram exibições do sentimentos de uma família. As regras sobre quem usava o que e por quanto tempo eram complicadas, e eram descritas em revistas populares ou manuais domésticos. Elas davam instruções sobre a etiqueta apropriada de luto. Se o seu primo em segundo grau havia morrido e você queria saber como deveria se vestir e se comportar, você consultaria um manual.

Fotografia de uma mulher em luto completo, por volta de 1860.
Fotografia de uma mulher em luto completo, por volta de 1860.

Para lutos profundos, como a morte de um marido, pai ou filho, as roupas tinham de ser negras, o símbolo da escuridão espiritual. Os vestidos de luto profundo geralmente eram feitas de seda ou bombazina, um tecido de algodão que imita o veludo. Os vestidos podiam ser aparados com frizados e crape, ou crêpe – um tecido de lã ou seda com uma distinta aparência frisada. O crêpe era particularmente associado com o luto porque não combinavam bem com outras roupas – você não poderia usá-lo junto do veludo ou cetim, ou colocar bordados e rendas nele, por exemplo. Depois de um período especificado, o crêpe poderia ser removido: isso era chamado de “desprezar o luto”.

Geralmente, o período em que a mulher deveria se vestir completamente de lã preta e punhos de crêpe com um véu duravam um ano. Nos primeiros seis meses do segundo ano, a mulher já poderia usar colarinhos e mangas de renda preta e crêpe, e um véu curto. Apenas nos últimos seis meses do segundo ano que o crêpe poderia ser removido: isso era chamado de “desprezar o luto”. A pessoa iria então para um período de meio-luto, usando cores que iam do cinza, ao lilás e ao branco. A simplicidade severa, totalmente antagônica ao uso de cortes e tecidos brilhantes, deveria caracterizar o luto profundo. Linhas retas e dobras longas eram mais adequados, assim como dobras lisas tomavam o lugar de babados e frizos.

Para os homens o luto era muito mais fácil: eles simplesmente usavam ternos escuros habituais, juntamente com luvas e gravatas pretas. Não se esperava que as crianças usassem roupas de luto, embora as meninas às vezes utilizavam roupas brancas com fitas negras. No entanto, tendo como exemplo a rainha Vitória, as mulheres eram as líderes do luto de uma família. Era ela que, como a representante social de seu marido ou filho, mostrava ao mundo como a morte entristecera a família.

O período de luto dependia do seu relacionamento com o falecido, e esperava que os diferentes tipos de luto ditadas pela sociedade refletissem o seu período natural de luto. Esperava-se que viúvas vestissem luto completo durante dois anos. Todas as outras pessoas, presumivelmente, sofriam menos: para crianças que perdiam os pais o luto era de um ano, assim como para pais que perdiam seus filhos. Para quem perdia os avós e irmãos o luto era de seis meses; para quem perdia os tios, dois meses, e para tio-avós seis semanas; para primos de primeiro grau, quatro semanas.

Um problema constante entre as roupas de luto e as roupas pretas é que é praticamente impossível distinguí-las hoje: uma mulher poderia usar roupas negras sem estar de luto, e era extremamente difícil distinguir se a mulher estava ou não de luto sem conhecê-la. Também é complicadíssimo hoje saber se um vestido negro do século XIX era de luto ou não, por isso não podemos generalizar: não é só porque um vestigo é negro ou uma mulher está vestida de negro em uma fotografia que significa que ela esteja de luto.

Vestido de seda negra, provavelmente de luto, 1850.
Vestido de seda negra, provavelmente de luto, 1850.

Vestido roxo de meio-luto, 1860.
Vestido roxo de meio-luto, 1860.

Vestido de meio-luto, 1872-1874. Americano, seda.
Vestido de meio-luto, 1872-1874. Americano, seda.

Vestido de luto da Imperatriz Maria Feodorovna, década de 1880.
Vestido de luto da Imperatriz Maria Feodorovna, década de 1880.

Vestido de luto de cetim, australiano, 1857.
Vestido de luto de cetim, australiano, 1857.

Vestido provavelmente de meio-luto, 1889-1892.
Vestido provavelmente de meio-luto, 1889-1892.

O luto era, pensando economicamente, um enorme gasto. Os livros de orações e bíblias tinham de ser reencapados com couro preto. os lenços usados tinham de ser pretos. As sombrinhas, luvas e todos os outros acessórios da moda tinha mque ser preto. A lista é interminável, mas a idéia era transmitir sinais a outras pessoas que a pessoa estava de luto pela perda e não usando apenas um vestido preto. Pequenas fitas pretas eram amarradas em garrafas ou penteadeiras, e fitas roxas ou pretas eram colocadas nas roupas das crianças.

Mulher em 1860, provavelmente de luto. Foto colorida digitalmente.
Mulher em 1860, provavelmente de luto. Foto colorida digitalmente.

Outro gasto era o fato de que além de ser preto, a roupa ainda tinha que estar na moda: era usado um modelo de vestido que estava na moda para ser usado no dia-a-dia ou em uma festa, e ele era replicado em diferentes cores e materiais. Logicamente, quando mais de uma morte acontecia em uma família com um pouco de tempo entre elas, era inevitável usar os mesmos vestidos. No entanto, na grande maioria das vezes os vestidos ficavam fora de moda e tinham que ser refeitos.

Outro detalhe do luto não poderia faltar: as jóias. A etiqueta exigia ornamentos específicos de luto. O cabelo da pessoa amada era uma das comuns jóas de luto, mas mais uma vez existe a confusão: era comum que jovens noivas dessem jóias para seus noivos com suas mechas de cabelo, e ela era usada pelo homem como um símbolo de amor, e não de luto. Da mesma forma, havia aqueles que diminuíam a importância social por conta da falta de praticidade: o autor Dickens via o alarde das lembranças de luto como desnecessária, pois eram rotuladas de ‘propriedades portáteis’ e vistas pelo seu valor ao invés do valor sentimental que deveriam ter.

A moda do luto foi drasticamente reduzida durante a era eduardiana, e mais ainda depois da Primeira Guerra Mundial. Naquele momento, muitas pessoas morriam e praticamente todo mundo estava de luto por alguém – além do grande recesso econômico que atingia os países e que acabou lançando modas mais econômicas.

Bibliografia:
CHURCH, Ella Rodman. How to Dress Becomingly in Mourning in 1885. Acesso em 18 de Fevereiro de 2016.
Victorian Mourning Etiquette. Acesso em 18 de Fevereiro de 2016.
The Fashion To Mourn Publicly. Acesso em 18 de Fevereiro de 2016.
Victorian Mourning & Funerary Practices. Acesso em 18 de Fevereiro de 2016.

Anúncios