Era Vitoriana

Primeiro site brasileiro dedicado ao período Vitoriano, datado de 1837 a 1901.

Enfermeiras no período vitoriano

A medicina do século XIX era uma combinação assustadora de medicamentos botânicos (alguns preparados com mercúrio, arsênico, ferro e fósforo), de ‘conhecimento popular’ (como a sugestão de laxantes e sangrias), assim como um conhecimento básico da anatomia humana – a dissecação ainda era proibida em vários lugares do mundo. Com a rápida urbanização das cidades, as taxas de mortalidade se elevaram mais na cidade do que no campo: tifo, tuberculose, varíola e cólera eram comuns e assustadoras, combinadas com um saneamento pobre. Apenas em 1875 seria feita a Lei de Saúde Pública na Inglaterra, abrangendo a habitação, esgoto, drenagem, abastecimento de água e doenças contagiosas, proporcionando à Grã-Bretanha o sistema de saúde pública mais extenso do mundo. O progresso tecnológico foi acompanhado por descobertas científicas, tais como o estetoscópio, em 1817, e a anestesia, em 1840.

Em 1856, foi criada a Associação Médica Britânica e, em 1858, o Conselho Médico Geral: ser médico era glamouroso, e institutos e prêmios foram criados, a formação médica se tornava cada vez mais formalizada e o número de médicos aumentava consideravelmente: de 14.415 em 1861 para 35.650 em 1900. As taxas de mortalidade diminuíram marginalmente, de 20,8 para mil em 1850 para 18,2 em 1900.

Enfermeiras do Great Ormond Street Hospital , 1878.

Apesar disso, as mulheres permaneciam em grande parte indesejáveis no mundo médico, com exceção da enfermagem. Florence Nightingale, de quem falaremos mais tarde, deu uma nova respeitabilidade às enfermeiras, mas elas já existiam muitos antes de Florence: a enfermagem desfrutava de uma nova glória, e era uma das poucas ocupações que uma moça de classe média poderia contemplar. O surgimento da enfermagem moderna coincidiu com mudanças nos hospitais, com a criação de novos hospitais especializados.

Assim como em outros aspectos da vida vitoriana, as enfermeiras deveriam ter uma boa base moral e ter um caráter virtuoso: consideradas as primeiras reformadoras dessa profissão, Florence Nightingale e Louisa Twining queriam que as enfermeiras tivessem boas habilidades clínicas, mas também um conjunto de comportamentos que as tornariam ‘profissionais’: esses elementos seriam: o respeito pelas classes superiores, a pontualidade, ordem, limpeza, diligência, eficiência e uma doese de piedade. Como já comentamos, o cuidado de doentes por muitos séculos foi praticada por freiras, então essa polidez, etiqueta e maneiras eram copiados do que já era visto em enfermeiras de ordens religiosas. Essas novas enfermeiras, da segunda metade do século XIX, tinham que não apenas serem habilidosas na parte médica, mas também saberem varrer, limpar e polir.

No final do século 19, começou aparecer uma grande preocupação de que as enfermeiras poderiam ter mais conhecimento do que os médicos: em um editoral de 1880, lê-se que a enfermagem não era um ofício, e que

As únicas qualificações exigidas para cuidar dos doentes são a bondade, a gentileza, a tranquilidade, a paciência, a força física, a mão leve e habilidosa, e o tipo de inteligência que torna fácil tomar decisões rapidamente (…) quanto ao resto, a enfermeira deve ser o servo do médico, e executar suas instruções. A ‘enfermeira treinada’ – ou seja, uma mulher treinada para a enfermagem como uma especialidade, é uma anomalia. Cada pedaço de informação que possui além do mero serviço rotineiro de enfermidade não é apenas inútil, mas travesso’.

Cada vez mais novas escolas de enfermagem surgiam, principalmente relacionados ao anglicanismo: na primeira metade do século, As Irmãs Anglicanas da Casa de São João foram contratadas para assumir a enfermagem no King’s College Hospital e tiveram muito sucesso; em 1866, três dos doze hospitais londrinos tinham irmãs anglicanas que prestavam cuidados de enfermagem. Logo, a enfermagem se tornou vinculado a classe social: não era bem visto que damas da sociedade tivessem trabalho remunerado, e mulheres da classe trabalhadora não tinham educação formal o suficiente para frequentar a escola. Assim, as enfermeiras vinham de duas classes: as da ‘classe média’, geralmente filhas de profissionais navais ou militares; e uma outra classe, de damas, que recebiam treinamento e não eram remuneradas.

Os uniformes de enfermeiras vitorianos foram adaptados a partir de hábitos de freiras, já que tradicionalmente freiras ajudavam os doentes. Então, eles eram simples e consistiam em um vestido de simples (geralmente de uma cor, azul, preto, cinza, branco, ou listrado) com um colarinho e punhos brancos, um avental branco e uma chapéu branco. Os estilos de vestido mudavam de acordo com as décadas e cada hospital tinha sua própria etiqueta, com diferentes tipos de aventais e chapéus.

Crianças com uma enfermeira, 1867.

Enfermeira em uniforme, 1885.

Enfermeira em uniforme, 1887.

Enfermeiras em 1898.

Enfermeira da Pensilvânia, 1889.

Enfermeiras da década de 1890.

Tendo como exemplo a St. John’s House, uma casa protestante fundada em 1848, as mulheres viviam juntas sob as ordens de um clérigo e uma mulher superintendente: elas pagavam 15 libras esterlinas para um programa de treinamento de enfermagem de dois anos, enquanto trabalhariam obrigatoriamente em um hospital durante 5 anos – em troca disso, elas teriam um quarto e um pequeno salário.

Durante a Guerra Civil americana, as enfermeiras mudaram bastante a opinião pública sobre o lugar da mulher no sistema de saúde: muitas se voluntariaram, deixando suas famílias para servir em situações que nunca teriam sido consideradas ‘apropriadas’ para damas. Em 1868, 3 anos após o final da Guerra, Samuel Gross, presidente da Associação Americana de Médicos, endossou a formação de escolas de treinamentos para enfermeiras.

Enfermeiras de Liverpool, da década de 1890.

Em 1896, foi criada a Nurse’s Associated Alumnae of United States and Canada, que mais tarde se tornaria a ANA – American Nurses Association, com o objetivo de registrar todas as licenças de enfermeiras, além de estabelecer um código ético, promover a imagem das enfermeiras e prover atenção e financiamento em interesse das enfermeiras. Uma outra preocupação era a criação de um currículo ‘oficial’, uma vez que os padrões de ensino eram muito diferentes. Por isso, em 1893, foi criada a American Society of Superintendents of Training Schools of Nursing, uma organização focada em elevar os padrões de ensino de enfermagem.

Bibliografia:
ROBINSON, Bruce. Victorian Medicine – From Fluke to Theory.
Women’s history and the professionalisation of nursing.
EGENES, Karen J. History of Nursing.
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6 comentários em “Enfermeiras no período vitoriano

  1. Shirlene F. Silva Rabelo
    18 de março de 2017

    Sou enfermeira,amei o post!!! Obrigada!!

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  2. Jose Carlos Manaia
    19 de março de 2017

    Prazeroso.
    Lê e ver informações ricas de detalhes
    Isto sim tem que fluir tbm nas redes sociais
    Parabéns
    Zenilda

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  3. Gorette Luz
    24 de março de 2017

    Essa é a verdadeira enfermeira.que hoje não se vê mais.infelizmente…

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  4. Luciana Bernava Balles
    3 de abril de 2017

    Nossa base
    Olha que elegância… Am

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  5. Catarina Rosa
    4 de abril de 2017

    Os funcionários antes eram mas elegante

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  6. LACUIDEN
    20 de abril de 2017

    Trajes interessantes, mas merecem reflexão pela similitude com outras indumentarias … excelente objeto de estudo para a imagem da enfermeira na perspectiva da história da cultura visual.😉

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Publicado às 17 de março de 2017 por em A vida no período e marcado , , , , , , , , .

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