Era Vitoriana

Primeiro site brasileiro dedicado ao período Vitoriano, datado de 1837 a 1901.

Caçadoras de maridos: as herdeiras norte-americanas que empobreceram o sangue azul britânico e salvaram a aristocracia

No século 19, a jovem jornalista Elizabeth Banks adorava escândalos e se especializou em descobrir histórias: ela trabalhou como florista, camareira e lavadeira para investigar e expor histórias. Ela um dia ouviu que havia um comércio transatlântico de noivas: jovens norte-americanas, ricas, estavam comprando sua passagem para a sociedade britânica ao se casarem com aristocratas empobrecidos.

Ela se interessou pelo assunto e, em 1894, colocou uma propaganda em uma revista londrina, fingindo ser uma herdeira: “Uma jovem senhora americana deseja se encontrar com um acompanhante de alta posição para apresentá-la a melhor sociedade inglesa“. Ela recebeu 87 respostas de mulheres prometendo até mesmo levá-la a Corte, com taxas que variavam de £500 a £10 mil euros (por volta de £250 mil hoje). Ansiosas pelo pagamento, as damas inglesas ofereciam seus serviços como intermediárias em um mercado de transferências.

Casamentos arranjados: a bela herdeira norte-americana Adele Beach Grant se casou com o Conde de Essex.

Ela também recebeu resposta de homens, com propostas de casamento. Um perguntou se ela não desejava se casar ‘com um inglês de alta posição social, que poderia colocá-la em um certo circulo. Eu sou um cavalheiro do país, tenho uma casa e uma propriedade finas, e sou oficial em um regimento distinto, conhecendo muitas pessoas de posição’.

Banks concordou em conhecer esse homem: ele se mostrou um homem aristocrático e bem apessoado. Investigando, ela descobriu que ele era viúvo, vinha de uma família importante mas de fortuna decadente. Ele informou que a trataria ‘com toda honra e respeito’, acrescentando: “seria uma necessidade absoluta de que você fosse uma dama de fortuna considerável”.

Todos estavam preparados para ignorar sua falta de ancestrais em troca de dinheiro.

Se eu tivesse levado meu experimento mais a sério“, Banks escreveu no The Weekly Sun, um jornal londrino especializado em história de fofocas e curiosidades: “eu teria sido uma das numerosas americanas que caminharam pela estrada dourada para o Salão do Trono no Palácio de Buckingham“.

O fato crucial nesse comércio era as fabulosas fortunas que estavam feitas da noite para o dia na crescente economia dos Estados Unidos. Para os ricos da América, tudo era comprável – inclusive o histórico familiar. A Tiffany tinha um departamento especial para projetar brasões. Os americanos então compravam suas credenciais aristocrácias, enquanto os aristocráticos britânicos, de famílias com antecedentes verdadeiramente históricos, estavam desesperados por dinheiro.

Na série Downton Abbey, a americana Cora se casou com o Conde de Grantham.

O resultado era um mercado de casamento nos quais garotas ricas dos EUA iam para a Europa se casar. Os duques estavam no topo da lista: quanto maior o pedigree, melhor. Para os futuros maridos empobrecidos, os antecedentes comprados de suas noivas eram os menores dos problemas.

Assim como Cora, da série Downton Abbey, mulheres da vida real fizeram o mesmo entre 1870 e 1914 com pelo menos cem casamentos na aristocracia britânica, francesa, italiana e espanhola.

Mas nem sempre dava certo, claro. Um casamento foi organizado entre a bela herdeira Adele e o difícil Duque de Cairns. Os convites do casamento já haviam sido enviados quando, no último minuto, tudo foi cancelado. A fofoca era de que as demandas financeiras do marido eram tão exorbitantes que sua família decidiu que não valia a pena. Adele então se casou com o viúvo Conde de Essex. Ela conseguiu o que queria: logo ela estava tomando chá com condessas e duquesas, festejando com reis e rainhas.

Em face das riquezas aparentemente ilimitada dos EUA, os aristocratas britânicos se tornaram bastante exigentes: um propaganda de 1901 afirmava que um homem ‘inglês de título muito antigo está desejoso de se casar com uma senhora muito rica. Sua idade e aparência são imateriais’. Ele procurava um adiantamento de 25 mil libras, pago em dinheiro.

Não havia escasses de compradores, mesmo quando o jornalista inglês William Stead descreveu esse comércio como ‘prostituição dourada’, e outro escritor trovejou sobre ‘herdeiros de excelente nome e título vendendo seus direitos de nascimento por um barganha de dólares americanos’.

Mary Leiter: ‘Gostaria de queimá-los na fogueira’.

Mas a maioria desses herdeiros estavam agradecidos por suas mulheres de ouro. Estima-se que entre 1875 e 1905, os americanos que se casaram com a nobreza trouxeram com eles cerca de um bilhão de dólares em pagamentos de dotes – dinheiro que salvou muitas casas majestosas em ruína.

Mas é claro, haviam outros preços a se pagarem. Para uma menina rica do Novo Mundo acostumada com uma casa acolhedora e abundante água quente, os grandes castelos sem água quente eram um terror. Mildred Sherman, de Ohio, se tornou Lady Camoys e desistiu de dar jantar formais porque não suportava as temperaturas geladas com seu vestido de noite. Mary Leiter, de Chicago, casada com Lorde Curzon, ficou chocada quando descobriu que teria que tomar banho em uma banheira de estanho, enchida com água quente da cozinha.

Também não era fácil suportar o esnobismo inglês, sendo tratadas como mulheres que não sabiam se comportar. Mary Letter achou os empregados britânicos rudes e hostis por causa de seus antecedentes. Ela ficou bem irritada: “Eles são maldosos e idiotas.Eu gostaria de pendurar alguns e queimar o resto na fogueira’.

No entanto, as jovens damas tinham um grande e inesperado aliado: o Príncipe de Gales, mais tarde Eduardo VII. Bertie, como era conhecido, se deleitava quando alguém desafiava a rigidez da corte vitoriana. Ele adorava as esposas norte-americanas. Isso, é claro, ajudou com que ele tivesse muitas festas, boa comida e um ambiente confortável com mulheres belamente vestidas. Ele era o convidado mais desejado do país.

Mildred Sherman desistiu de dar jantares formais por conta da baixa temperatura.

Alguns casamentos acabavam assim como começavam. Consuela Yznaga, de uma família que fez fortuna no açúcar cubano, se casou com o Duque de Manchester. Jogador e adorador de prostitutas, desperdiçou toda sua fortuna e ambos acabaram com falta de dinheiro. Ela se voltou para o mercado, introduzindo jovens herdeiras americanas na alta sociedade inglesa – mas com um custo. Em troca do pagamento de suas contas, ela preparava suas protegidas, apresentava-as na corte e dava um jantar, na qual o Príncipe estaria. Com a aprovação real, nobres jovens se casariam com ricas damas.

Algumas eventualmente escapavam: Alice Thaw, a ingênua filha de um milionário do ramo do ferro em Pittsburgh, casou-se com o Conde de Yarmouth sem saber que ele era homossexual. Depois de três anos, o casamento foi anulado por falta de consumação. Para se livrar dele, Alice precisou pagar uma renda anual de 30 mil dólares para seu marido.

Eventualmente, as noivas transatlântica acabaram. Após o primeiro golpe de glamour, a vida na Inglaterra, ‘com seu clima miserável, falta de conforto doméstico, isolamento na vida rural e um marido que gastava dinheiro enquanto a esposa ficava sozinha, resultou em desilusão e miséria’. Alguns, como Mary Curzon, nunca superariam o sentimento de deslocada: ‘Eu nunca serei uma mulher inglesa com sentimentos ou personalidade. Oh, a infelicidade que vejo ao meu redor aqui entre as mulheres americanas’.

Bibliografia:
RENNEL, Tony. The husband hunters: A new book reveals the extraordinary lengths American heiresses went to snap up impoverished British blue bloods in a cash-for-class deal that saved the aristocracy. Acesso em 2 de Junho de 2017.
RAVADO, Rik. Downton Abbey: How Robert and Cora Crawley First Met. Acesso em 2 de Junho de 2017.
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13 comentários em “Caçadoras de maridos: as herdeiras norte-americanas que empobreceram o sangue azul britânico e salvaram a aristocracia

  1. Fran Sá
    27 de junho de 2017

    Coitadas deve ter sido um tédio

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  2. Laísa Pedroso
    27 de junho de 2017

    Olha a história das irmãs Bowman! 😍

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  3. Deise Ramos
    27 de junho de 2017

    Amei esse artigo!

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  4. Andressa Da Silva
    27 de junho de 2017

    Downton Abbey é história!!

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  5. Luiza Scopel
    27 de junho de 2017

    Cora ❤

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  6. Ticiane Ingrid
    27 de junho de 2017

    Matéria muito interessante 🙂

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  7. Raphael Fernando
    27 de junho de 2017

    “Bem, basta ter dinheiro para salvar um casamento, paixão e afeto é apenas complemento…” Assim defino grandes relacionamentos…

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    • Ricardo Bruce
      28 de junho de 2017

      a matéria deixou de citar os dois casos mais célebres:
      Lord Churchill e Jeanne Jerome, pais de Winston Churchill, e Winnaretta Singer, filha de Isaac Singer, inventor da máquina de costura portátil, riquíssima e lésbica, com o Príncipe Edmond de Polignac, par de França, homossexual e falido (rsrs), que formaram um grande casal de mecenas.
      Não obstante, nada vejo de atraente nesse modelo. rsrs

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      • Raphael Fernando
        28 de junho de 2017

        É completamente interessante como nós humanos nos unimos a alguém por dinheiro, status, manter as aparências, mesmo sabendo de que todo o resto do mundo sabe da real história… Increíveis as histórias de casamentos do inicio do séc XX…Eu amo…

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  8. Maíra Grazielle
    28 de junho de 2017

    Mds do céu que fato histórico maravilhoso

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  9. Charlene Roncolatto
    28 de junho de 2017

    Sabe a primeira coisa que lembrei? Da Lillian 😂😂😂 do livro da Lisa Kleypas

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  10. Marcia Campos
    28 de junho de 2017

    A verdade é que aristocracia era ou é ainda sinônimo de vagabundagem!

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  11. Grazy Souza
    28 de junho de 2017

    “Após o primeiro golpe de glamour, a vida na Inglaterra, ‘com seu clima miserável, falta de conforto doméstico, isolamento na vida rural e um marido que gastava dinheiro enquanto a esposa ficava sozinha, resultou em desilusão e miséria’. ” nossos livros são bem acurados hahah

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Publicado às 5 de junho de 2017 por em A vida no período e marcado , , , .

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