Era Vitoriana

Primeiro site brasileiro dedicado ao período Vitoriano, datado de 1837 a 1901.

Como era a vida das mães solteiras na Era Vitoriana?

Crianças que não tem um dos pais ou ambos eram um tema frequente nas novelas de Charles Dickens, o que não teria surpreendido os leitores vitorianos, uma vez que a alta mortalidade significava que se tornar um órfão não era um infortúnio estranho. Em Oliver Twist, Dickens mostra como uma criança sozinha em um mundo difícil revela os dramas e perigos da situação dos órfãos.

Quando a mãe de alguma criança morria e o pai não era encontrado, as autoridades anunciavam nos jornais para procurar a filiação da criança, com a esperança de que a família de um dos pais pudesse reconhecer e pegar a criança para criar, salvando a paróquia do custo de criá-la.

Isso porque os benefícios às mães solteiras ou a criação de órfãos geralmente era atribuída às paróquias locais. Entre 1860 e 1834, a Lei dos Pobres na Inglaterra faziam com que o pagamento dos benefícios fosse feito de acordo com a renda familiar média da vizinhança. As mães solteiras recebiam mais na folha de pagamento, assim como os idosos. Se uma mulher grávida quisesse reivindicar algum benefício na década de 1830, ela procuraria dois oficiais judiciais e jurava que conhecia a identidade do pai da criança. Nenhuma outra prova era necessária – ela receberia o benefício, e os funcionários tentariam procurar o homem. Se o encontrassem, ele teria que pagar todas as despesas do parto e todas as outras despesas de alimentação e vestuário. Se ele não fosse encontrado, a paróquia apoiaria a mulher – esse era um grande empreendimento financeiro, já que o nascimento de crianças ilegítimas era muito grande nessa época.

Os pais que não pagassem eram perseguidos pelos funcionários locais e, em alguns casos, eram enviados para prisão. O sistema, é claro, não era universal – algumas paróquias eram mais relapsas em encontrar os pais, que muitas vezes não podia ser rastreado – se tivessem ido a Guerra ou trabalhar fora do país, por exemplo. Os benefícios eram concedidos apenas a pessoas com extrema necessidade, e os membros da sociedade envergonhavam aqueles que recebiam o benefício. Cada paróquia tinha um supervisor, que exibiam publicamente as listas daqueles que recebiam o benefício – essa era uma medida que permitia que a comunidade soubesse quem recebia o seu dinheiro.

No entanto, a paróquia não ajudaria uma mulher que fosse prostituta ou de ‘má fama’. As mulheres solteiras que ficassem grávidas e não conseguissem o apoio da paróquia, teria que desistir de seu filho e dá-lo para a adoção. o Hospital Foundling, em Londres, recebeu crianças advindas de mais de 4.500 mulheres ao longo do século XIX. Para poder voltar a trabalhar e não viver a margem da sociedade – nenhuma mulher poderia criar um filho bastardo e permanecer na sociedade ou no seu emprego – os bebês ou eram doados para adoção ou a mãe jurava que era casada, que o pai tinha sumido, ou que ela tinha sido, de alguma forma, ludibriada por algum homem que disse que se casaria com ela.

No período vitoriano, a pureza da mulher era extremamente vigiada e incentivada. Mesmo as mulheres da sociedade não eram retratadas e nem saíam de suas casas quando estavam grávidas, pois essa era a afirmação máxima de que haviam transado e, por isso, não era mais puras. Em um livro chamado “A Woman against the World”, de William Gayer Starbuck, o autor diz:

“Quando uma mulher perde a sua pureza, não há retorno para ela, nem tentativas de lavar a mancha. Os homens pecadores são perdoados, mas a memória da culpa de uma mulher não pode ser removida da Terra. Sua natureza é tão requintadamente refinada que a menor mancha se torna um grande defeito”.

Esse ‘juramento’ era considerado uma prova de bom caráter, e as mulheres tinham que escrever sobre isso para que seus filhos fossem aceitos no Hospital Foundling. Nessas cartas, as mulheres precisavam descrever os detalhes de suas vidas sexuais. Algumas das cartas:

  • Ann Gidding, de 21 anos, disse em 1831 que era criada e que o pai da criança era um lacaio na casa onde trabalhava. Depis que descobriu que estava grávida, ele a abandonou, e ela não tinha nenhuma forma de criar seu filho.
  • Susannah Jane Keys, que deu à luz a gêmeos, disse que o pai era um inquilino na casa de alguns amigos. Ele parecia respeitável, mas foi visitá-la e a estuprou. Ela resistiu e gritou, mas ninguém a ouviu. Harriet Hooper, que conheceu o pai de seu filho em uma aula de canto da Igreja, descreveu uma história similar.
  • Sarah Farquar, que chegou no hospital com seu filho em 1854, disse que era uma governanta, que foi drogada e estuprada.

De acordo com Nead, muitas dessas histórias trágicas são mentiras – as mulheres sabiam o que precisavam dizer para salvar o seu bebê: que sempre foram mulheres respeitáveis, mas que tinham sido ludibriadas. Tudo nelas era analisado: até a aparência e as roupas com que íam ao hospital. As histórias eram investigadas: o filho de Ann Gidding, por exemplo, não foi aceito, pois nenhum dos nomes que ela forneceu (o nome do pai da criança e da família na casa em que trabalhava) existia.

Em uma época de paz e prosperidade na Grã Bretanha, também havia muitas injustiças sociais. Em resposta, muitos autores interviam e defendiam as mães solteiras, em novelas como Ruth e Esther Waters, dizendo que o destino dessas mulheres eram causadas pela sociedade em que viviam, e não por elas mesmas.

O benefício não durou durante todo o período vitoriano: em 1834, o London Times falou sobre indignação moral e sobre os fiscais vitorianos dos pobres – era inflexível que o benefício para indigentes e mães ilegítimas havia prejudicado gravemente as paróquias e a moral feminina na Inglaterra, incentivando a bastardia e a ociosidade. a Nova Lei dos Pobres aliviaria os fundos paroquiais e acabaria com essa ‘grande ofensa ao sacramento do casamento’. Assim, essa Nova Emenda à lei foi baseada na lei de 1601, que dizia que embora ter um filho ilegítimo não fosse punível com a lei, a falta de apoio à criança era uma ofensa punível para ambos os pais. O punido dever da justiça era ver qual dos dois pais criavam o filho bastardo.

Ao longo dos anos, o Estatuto era fortalecido contra o pai – o sedutor, na maioria dos casos. Ele precisava ser punido, já que se continuasse solto, apenas seria encorajado a continuar produzindo mais bastardos, e fugir da responsabilidade impediria que ele interrompesse seu comportamento licencioso – o que custaria caro ao Estado. Assim, na Nova lei, se a mãe não poderia custear a criação da criança, guardiões poderiam se candidatar em sessões, e um pedido de manutenção seria pedido ao pai para qualquer criança menor de 7 anos. Quanto ao trabalho da mãe, na maioria das vezes eram em fábricas, serviços domésticos ou bordados, que eram mantidos sob vigia de seus empregadores. Seria impossível ocultar a gravidez nos últimos meses, e se fosse descoberta, era demitida. As mães jovens eram forçadas a procurar um novo emprego, mas seria impossível com uma criança ilegítima ao seu lado. A censura da sociedade, das agências de ajuda, o medo e a fome, desolação e vergonha dificultava a criação dos filhos. É claro, isso gerava todo um comércio de babás, ou ‘criadoras de bebês’, que eram anunciadas em jornais.

Histórias como a de Fantine, da novela Os Miseráveis, eram muito comuns: as mães trabalhavam e pagavam para que alguém olhava seus filhos, que muitas vezes era explorada e morria: até 1872, não havia leis contra o abuso de crianças. Se uma criança morria por negligência ou fome, nada aconteceria, mas o medo do ideal vitoriano da santidade da família fez com que a lei mudasse.

Durante a metade do século XIX, de 34 a 40 mil mulheres tiveram filhos ilegítimos na Inglaterra. Mas a grande parte era da classe mais baixa – que muitas vezes não viam outra saída que não a morte, que era incentivada por amigos e pela família. Nesse mesmo período, 12 mil mães assassinaram seus filhos, em decorrência do seu medo e dificuldades em obter trabalho e sustento. Em outra estatística, havia na Inglaterra 210 mil mulheres abandonadas – prostituas e mães não casadas. Apenas no final da Era Vitoriana a Câmara dos Comuns e dos Lordes lutava tenazmente pela proteção da vida infantil e da segurança financeira para crianças ilegítimas: os vitoriano aumentaram seu senso de consciência social ao longo do século XIX.

O NGram do Google, que rastreia a frequência de palavras na literatura, mostra que a palavra ‘respeitabilidade’ atingiu seu maior uso em 1834 – três anos antes de Vitória se tornar Rainha, mas essa palavra é vista tão intrínseca ao seu reinado, que era o que acreditavam que distinguia os ricos, a ‘sociedade’, do resto da população. Embora seu uso diminuiu no século 21, ele permanece na forma com que as pessoas reagem ao termo ‘mãe solteira’

A mãe solteira é vista em toda literatura vitoriana como algo a ser evitado e sofrid. Correspondências sobre o assunto mostra um desejo de ajudar, mas também as opiniões de que as mulheres ficavam grávidas para obter benefícios financeiros e atrapalhar os homens. Até hoje, os jornais reforçam essas opiniões vitorianas de que as mulheres viram mães para terem benefícios do governo. Ou seja, mesmo depois de mais de 150 anos, o espectro dos valores vitorianos assombra todas as mães solteiras – e isso é algo que deve ser mudado.

Bibliografia:
MOORHEAD, Joanna. The Victorian women forced to give up their babies. Acesso em 13/07/2017.
GWALCHMAI, Ben. How the legacy of Victorian times still looms over single mothers. Acesso em 13/07/2017.
HOGENBOOM, Melissa. Were single mothers better off in the 19th Century?. Acesso em 13/07/2017.
HALLER, Dorothy L. Bastardy and Baby Farming in Victorian England. Acesso em 13/07/2017.

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6 comentários em “Como era a vida das mães solteiras na Era Vitoriana?

  1. Anônimo
    13 de julho de 2017

    Muito bom

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  2. Lila Toaldo Borges
    13 de julho de 2017

    A história é a melhor ferramenta para nos mostrar o quanto a opinião esmagadora de uma sociedade pode infligir sofrimento a tantas gentes. A ignorância, de fato, é a mãe de muitos males.

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  3. Anônimo
    13 de julho de 2017

    Excelente.

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  4. Juliana Dantas
    13 de julho de 2017

    Ótimo texto!

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  5. Samanta Maior
    15 de julho de 2017

    Eu concordo que era uma situação muito injusta quando a mulher realmente sofria abuso ou era abandonada pelo companheiro.
    Porém, moro perto de uma comunidade e vejo que as moças não tem nenhum juízo. Elas ficam com qualquer um e nem se preocupam de usar contraceptivo. Resultado: uma criança que é negligenciada. Vejo moças com mais de um filho, cada um de um pai. É uma irresponsabilidade! Depois acham que o Estado tem obrigação de ajudar. Eu não acho. Cada um tem que ser responsável pelos seu atos.
    Não é uma crítica, não. Só estou falando do que eu vejo.
    A mulher reclamava que não tinha liberdade. Hoje que ela tem, em vez de usar para estudar, melhorar e usufruir sua liberdade com responsabilidade, fica por aí imitando o pior do comportamento masculino: a promiscuidade.

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  6. Thays Regina Biehl
    15 de julho de 2017

    Quase igual a hj..!!

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Publicado às 13 de julho de 2017 por em A vida no período e marcado , , , .

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