Era Vitoriana

Primeiro site brasileiro dedicado ao período Vitoriano, datado de 1837 a 1901.

Zahra Khanom Tadj es-Saltaneh, uma memorialista da Dinastia Qajar

Poucos dias atrás, me enviaram uma publicação de uma suposta princesa iraniana chamada Qajair, que teve 145 pretendentes da alta nobreza e 13 deles tiraram a vida à sua rejeição – ela era considerada símbolo de beleza, apesar do padrão de beleza da maioria daqueles que comentaram na publicação claramente não concordavam com isso. A página do Facebook, que me pareceu mal pesquisada logo no início, me deixou um pouco curiosa e decidi pesquisar a fundo sobre o tema.

A publicação do Facebook.

Foi quando descobri que Qajair não era uma princesa, e sim o nome de uma dinastia, e que uma das mulheres associadas com símbolos de beleza na época era Zahra Khanom Tadj es-Saltaneh, uma princesa persa e memorialista da Dinastia Qajair – de fato, a primeira memorialista. Quanto as fotos da tal princesa, não eram precisamente corretas – em 1848, o Shah Nasser al-Din Shah Qajar permitiu que pela primeira vez na história um harém real fosse fotografado, e essas são as fotos de algumas de suas esposas.

 

Primeiro, falaremos de Zahra Khanom Tadj es-Saltaneh (1883 – 1936). Princesa persa, era filha de Nasser al-Din Shah, Rei da Pérsia de 1848 a maio de 1896, filha de uma de suas esposas, Turan es-Saltaneh. Ela era casada com Amir Hussein Khan Shoja’-al Saltaneh, com quem teve duas filhas e dois filhos. Ela era o interesse amoroso do famoso poeta do Irã Aref Qazvini.

Zahra.

Embora não exista relato de que qualquer homem tenha se suicidado por ela, Taj foi pioneira dos direitos das mulheres no Irã, uma das fundadoras do grupo Anjoman Horriyyat Nsevan (Sociedade da Liberdade das Mulheres), que trabalhava pela igualdade de direitos no início do século 20. Além disso, Taj era escritora, pintura, intelectual e ativista, que dava noites literárias em sua casa uma vez por semana, e a primeira mulher na corte persa a tirar o hijab e usar roupas ocidentais.

Suas memórias foram publicadas sob o título (Coroação da Angústia: Memórias de uma Princesa persa do Harem para a Modernidade 1884-1914) em 1996. Tadj se destaca pois, muito antes de memórias de mulheres da diáspora iraniana se tornarem populares no Ocidente, ela escreveu um livro sobre suas memórias. Apesar de ser criada no harém, onde o ardor e egoísmo do Xá reuníam centenas de mulheres que competiam constantemente pela sua atenção, Tadj cresceu sem esse sentimento de superficialidade e materialismo. Em suas memórias, ela foi muito franca em criticar o patriarcado e atraso das ações de seu pai e seu irmão, Mozaffar-al-Din Shah. Quando ela fala sobre sua dor após o assassinato de seu pai, ela lembra ao leitor sobre o seu maior sofrimento sobre o presente e o futuro do Irã. Suas memórias mostram que Tadj estava familiarizada com arte, música, pintura, história e até literatura francesa.

Estilisticamente, o estilo das memórias de Tadj se encaixam no subgênero da escrita de biografia persa chamada khaterat, onde existe uma mistura do mundo pessoal e do público, uma mistura das memórias individuais e coletivas. Tadj conta sobre suas lembranças de infância no harém, o assassinato de seu pai, e seu novo casamento depois do divórcio de seu marido. Ela investiga e analisa o pano de fundo de eventos históricos. Ela cobre trinta anos de sua vida, que foi um período na história do Islã onde a sociedade passou da antiga para tradicional para algo novo e moderno. Foi um momento de rápida mudança e confusão. As mulheres no EUA, França e Grã-Bretanha já haviam ganhado o direito de votar, mas apesar do seu envolvimento na Revolução Constitucional (1905 – 1907), as mulheres iranianas ainda eram privadas dos direitos básicos de cidadania. Independente de sua linhagem real, a princesa Tadj defendia avidamente a revolução constitucional.

Naser al-Din Shah Qajar

Agora, as fotos que foram alvo de diversos comentários foram as fotos das mulheres do harém de Nasser al-Din Shah Qajar (1831 – 1896), terceiro reinante mais longo da história iraniana e o primeiro monarca iraniano a visitar formalmente a Europa. O Estado de Naser era reconhecido pelo governo do Irã, mas sua autoridade era minada pela autoridade dos líderes tribais locais. Esses grupos mantinham suas próprias milícias e muitas vezes não obedeciam às leis aprovadas pela monarquia.

Uma das suas maiores paixões era a fotografia. Acredita-se que ele tenha recebido sua primeira câmera da Rainha Vitória, aos 11 anos, em 1842. Na infância, ele gostava de tirar fotos, e quando chegou ao poder, decidiu estabelecer em seu palácio o primeiro estúdio fotográfico oficial. Na década de 1870, em Teerã, o fotógrafo russo Anton Sevryugin se tornou o fotógrafo oficial da corte e do governo iraniano. Oficialmente, ele poderia filmar apenas o Xá, seus parentes, cortesões e criados masculinos. Mas sendo um fervoroso fã da fotografia, Xá permitiu que Anton fotografasse seu harém, que tinha 84 concubinas (ou esposas).

As fotografias dessas mulheres contradizem a descrição convencional da vida em um harém – elas olhem bem calmamente para a lente, sem coqueteria ou servilidade.Você poderia até imaginar que talvez as esposas do harém gostassem da companhia uma das outras; em algumas fotos, as festas de piquenique são mostradas.

Pelas fotografias, você pode avaliar os gostos do monarca iraniano. Claramente as mulheres não passavam fome e não estavam sobrecarregadas com qualquer tipo de trabalho físico. Em muitas das fotos, as concubinas são retratadas em saias curtas e decoradas de forma opulenta, chamadas “shaliteh”, semelhante ao tutu do balé. Isso não é coincidência.

Em 1879, Naser viajou para São Petersburgo a convite do czar russo Alexandre II. Lá, ele assistiu algumas apresentações de balé, e de acordo com alguns rumores, ele fiicou tão encantado com as dançarinas que vestiu algumas de suas mulheres com saias semelhantes.

Bibliografia:
Naser al-Din Shah Qajar and His 84 Wives: Rare Photographs and the Story of the Iranian Shah and His Harem. Acesso em 11/09/2017.
Zahra Khanom Tadj es-Saltaneh. Acesso em 11/09/2017.
Zahra Khanom Tadj es-Saltaneh. Acesso em 11/09/2017.
Naser al-Din Shah Qajar. Acesso em 11/09/2017.

Anúncios

29 comentários em “Zahra Khanom Tadj es-Saltaneh, uma memorialista da Dinastia Qajar

  1. Rômulo Gonzales
    13 de setembro de 2017

    Adoro as publicações dessa página!

    Curtir

  2. Karina Lopes
    13 de setembro de 2017

    Pq será que ele não escolhia as mais belas para o harem? E essas saias curtas kk

    Curtir

    • Adriana S Kowalski
      14 de setembro de 2017

      Pq vai ver esse era o padrão de beleza da época
      🤔

      Curtir

      • Maria Helena
        14 de setembro de 2017

        Sim. E às vezes elas até foram as mais belas por um tempo. Essa é uma foto da Zahra. Mas depois ela ficou gordinha como as outras 🙂 Acho que temos é que ficar felizes que o Xá não as descartou com a idade.

        Curtir

  3. Luã Reis
    13 de setembro de 2017

    A foto de saia é a melhor 😹😹😹😹😹😹

    Curtir

  4. Flavia Souza
    13 de setembro de 2017

    Nunca vi tanta mulher feia….kkkkkl Só tem dragão..

    Curtir

  5. Nunes Roselyh
    14 de setembro de 2017

    Se essas são as belas do harem imagina as reles mortais da pobreza 😱😱😱

    Curtir

    • Karine Fonte de Azevedo
      14 de setembro de 2017

      Podem bem ser as belas na opinião do homem que as desposou, vestindo as roupas que o marido assim escolheu – e claro, quando é o marido quem dita moda, não sai coisa boa.
      Entretanto, não vamos esquecer que estas podem nem ser as mais belas, mas sim as que têm status maior dentro do harém, ou porque manobraram politicamente a corte com mais sucesso, ou porque tiveram filhos do rei.

      Curtir

      • Maria Helena
        14 de setembro de 2017

        Exatamente. E outra, todas elas podem ter sido as mais belas da Pérsia por um tempo. Só olhar uma foto da filha dele quando jovem. Durante um tempo na Europa, estar acima do peso era um sinal de riqueza. Só o fato do Xá ter tido dinheiro para deixar todas essas 84 mulheres obesas deixaria claro o tanto de dinheiro que ele tinha disponível.

        Curtir

  6. Lumi Miyuki Chan
    14 de setembro de 2017

    Parabéns à página pelas excelentes matérias e informações interessantes.

    Curtir

  7. Maria João Furtado
    14 de setembro de 2017

    Mais paressem homens do que mulheres. E se o são deviam de ser obrigadas a comer para serem obesas.
    Também sei que há umas tribos muçulmanas que ainda hoje, têm o culto da mulher obessa, por isso obrigam as meninas logo de tenra idade a alimentá-las em exagero.

    Curtir

    • Maria Helena
      14 de setembro de 2017

      Não tem como comparar os costumes de pequenas tribos muçulmanas com os costumes de uma corte persa no século XIX. Durante vários séculos na Europa, estar ligeiramente acima do peso era um símbolo de riqueza e status. O fato do Xá ter tido dinheiro suficiente para deixar 84 mulheres obesas deixaria claro para qualquer um o seu poder. Além disso, era algo extremamente de gosto pessoal, já que nenhum outro homem poderia ter contato (nem mesmo ver o rosto) das mulheres do Xá.

      Curtir

      • Cintia Regina Scofano
        14 de setembro de 2017

        Era Vitoriana, na verdade a comparação é super válida, pq o motivo é o mesmo, mostrar a opulência tanto do pai quanto do marido, e isso ainda ocorrer hj é fascinante

        Curtir

        • Maria Helena
          15 de setembro de 2017

          O culto da mulher obesa ok, mas elas serem obrigadas a comer? Acredito que não.

          Curtir

          • Cintia Regina Scofano
            14 de setembro de 2017

            Era Vitoriana , não seja tão literal com a palavra “forcada”, nesse caso é se incentivar o consumo constante de comida, e a inercia, para que o corpo fique como o homem delas desejava

            Curtir

            • Maria João Furtado
              14 de setembro de 2017

              Uma vez, vi um documentário no programa Odisseia da TV que dá aqui em Portugal em que, uma delegação da UNICEF descobriu uma tribo de Berberes do deserto que praticam a engorda das meninas logo em criança. Segundo a tradição, os homens só casam com elas se forem corpulosas. É um horror e chegam a bater nas crianças por vomitar o que acabaram de comer. Isto é verdade. É uma questão de pesquisar.

              Curtir

              • Maria Helena
                14 de setembro de 2017

                Falei “obrigada” pois foi isso que estava escrito no comentário ao qual eu respondi. Incentivar o consumo de comida e comer como algo cultural é uma coisa, ser obrigada a comer pelo marido para engordar é completamente diferente. E então, voltamos a questão de comparar costumes de pequenas tribos da África com a corte persa, que são coisas diferentes. Se em ambos os casos era visto como sinônimo de opulência; ok, mas como isso era praticado na corte do Xá é algo que nem eu e acredito nem você temos fontes a respeito.

                Curtir

  8. Adriana Paiva
    14 de setembro de 2017

    Adorei a matéria! Adorei saber um pouco sobre a historia da Princesa Zahra, a diferença cultural é enorme não só pelo pais mas pela época que ela viveu, só acho triste as pessoas estarem dando mais enfase na questão da beleza das esposas( que é uma questão de gosto) do que no fato que uma princesa persa do inicio do século lutar pela liberdade das mulheres e se preocupar com o futuro do país, que infelizmente sabemos como acabou para a maioria dos países daquela região, imagino como a princesa Zahra se sentiria se visse o que a maioria dos países do oriente se tornaram hoje.

    Curtir

  9. Veridiana Machado
    14 de setembro de 2017

    Esse é o tipo de coisa que me atrai nas matérias que leio, informações interessantes e curiosas. Parabéns pela pesquisa!

    Curtir

  10. Carlos Alberto Moreira
    14 de setembro de 2017

    No oriente médio tem um povo muito feio e isso é fato.

    Curtir

  11. Jaqueline Oliveira
    14 de setembro de 2017

    Que bela investigação 👏👏👏👏. Excelente matéria!

    Curtir

  12. Marcia Cristina Bertuci Miclos
    14 de setembro de 2017

    Eu tbem tinha visto uma postagem falando dela… e achei que era fake! Kkkk

    Curtir

  13. Juliana Almeida Ribeiro
    14 de setembro de 2017

    Muito interessante!!!

    Curtir

  14. Jack Venson
    14 de setembro de 2017

    Também fiquei curiosa quando vi. Obrigado pela pesquisa foi uma ótima informação.
    E quanto a eles não serem consideradas bonitas, hoje temos um padrão de beleza bem difícil, que bom que estás mulheres eram valorizadas do jeito que eram.

    Curtir

  15. Maria DO Carmo Diniz
    14 de setembro de 2017

    Gosto muito bestas publicações

    Curtir

  16. Rebeca Ferreira Paz
    14 de setembro de 2017

    Muito legal!

    Curtir

  17. Esmeh John
    15 de setembro de 2017

    Bom Dia amiga! O povo daquela época tinha uns gosto muito estranho😀😀eu acho que a beleza que contava naqueles tempos era a grama da família o poder😀😀 então tudo era belo…porque essa mulher para mim é uma assombração para os tempos de hoje…

    Curtir

  18. Vanessa
    16 de setembro de 2017

    Tive a mesma curiosidade que vc que ao procurar mais dobre eda história me deparei com seus comentários. Obrigada valeu

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 13 de setembro de 2017 por em Personalidades e marcado , , , , , .

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 107 outros seguidores

Translate this

Siga-nos no Youtube

%d blogueiros gostam disto: