Amizade feminina, identidade e lesbianismo no século 19

À primeira vista das identidades e da sexualidade das mulheres na Grã-Bretanha vitoriana, assume-se que a expressão da sexualidade feminina de forma pública era negada, controlada ou silenciada. No entanto, na era vitoriana, é claro que as mulheres conseguiram expressar uma certa quantidade de sexualidade através de amizades apaixonadas com outras mulheres. As amizades que as mulheres tiveram com outras mulheres tiveram um grande impacto nos pontos de vista da sociedade sobre a sexualidade e a identidade femininas, e há muita riqueza de fontes do período para apoiar essa idéia.

Essa foto de Isabella Grace e Florence Elizabeth Maude tem sido muito divulgada como um casal lésbico mas as duas são, na verdade, irmãs.

Na Grã-Bretanha vitoriana, as amizades femininas eram muitas vezes romantizadas, permitindo às mulheres mais liberdade expressar sentimentos umas pelas outras. No entanto, nem todas essas relações continuaram a se desenvolver para se tornarem relações homossexuais; essas relações românticas, vistas na amizade feminina, contribuíram para idéias de fraqueza feminina, pois sugeriam que as mulheres eram mais suscetíveis às suas emoções do que os homens. Além disso, as mulheres eram encorajadas a falar sobre costura, crianças e outras atividades distintamente femininas, e isso afetava a forma como elas desenvolviam sua identidade.

Para muitas mulheres, a amizade com outras mulheres permitia expressar seus sentimentos em um ambiente socialmente aceitável e, portanto, as mulheres usavam a linguagem como parte fundamental do desenvolvimento de uma relação. O “amor”, por exemplo, era usado por muitas mulheres como uma forma de desenvolver um vínculo estreito com outras mulheres, mas era usado apenas como um termo relacionado à amizade e não atração.

Portanto, as relações de lésbicas muitas vezes não foram descobertas, à medida que os limites das amizades entre as mulheres se tornavam turvas. Anna Clarke nos diz que as mulheres

“beijavam, abraçavam e trocavam cartas intensamente românticas … a sociedade considerava tais amizades tão perfeitamente aceitáveis, mesmo tocantes”.

Charlotte Cushman e Matilda Hays.

Assim, as relações lésbicas poderiam ser facilmente mascaradas, pois  as mulheres do início da Bretanha moderna eram ensinadas a seguir um modelo de “amizade apaixonada”. Há muitas evidências que sugerem que as mulheres tenham seguido um modelo que, em alguns casos, levava a relações sexuais. Por exemplo, as amizades de Anne Lister com Anne Walker e Marianna Lawton (Belcombe); Rosa Bonheur, por exemplo, passou grande parte de sua vida adulta vestindo roupas masculinas e morando com outra mulher; seu traje masculino permitia que ela assumisse uma identidade masculina e, assim, justificasse seu relacionamento como seguindo um padrão normal, onde existiam um caráter masculino dominante e um feminino submisso.

A maternidade era uma parte fundamental da identidade feminina no início da Grã-Bretanha moderna. Considerando que a maioria das mulheres não tinha empregos, a maternidade era muitas vezes a parte central de muitas de suas vidas. Para muitos, a incapacidade de ter filhos levaria a uma perda de status e respeito. Assim, uma grande parte da identidade feminina na Grã-Bretanha vitoriana estava centrada na maternidade. A classe e a influência dos homens também podem ser vistas como fundamentais no desenvolvimento de diferentes idéias de sexualidade e identidade entre as mulheres. Para muitas mulheres da classe média e alta, é através de suas cartas que podemos ver como isso contribuía para sua identidade: a amizade romântica era muitas vezes consolidada através da troca de presentes e cartas, e assim, o conceito de amizade romântica era muito mais proeminente nessas classes do que a classe trabalhadora. A capacidade dessas mulheres de trocar cartas de estilo romântico contribuiu para as idéias da sociedade sobre a sexualidade feminina na Grã-Bretanha vitoriana. Esperava-se que as mulheres possuíssem traços de “altruísmo e empatia” que contrastavam diretamente com a expectativa de traços masculinos de “competitividade e autodeterminação”.

Mary Benson, aos 70 anos.

A vida romântica das mulheres lésbicas de classe média e alta, que esperava-se que estivessem casadas antes do 30, eram em sua grande parte mantida em segredo: os diários de Mary Benson, esposa do Arcebispo de Canterbury, são a única fonte de sua vida dupla, onde ela detalhava seus casos extra-conjugais, entre eles com Charlotte ‘Chat’ Basset, uma vivaz mulher de meia-idade que se casara com uma família rica de mineração de cobre; Tan Mylne, esposa de um estudante de teologia e outras mulheres menos conhecidas, como Emily e Ethel Smyth.

Outro casal lésbico famoso do período é Charlotte Cushman e Matilda Hays. Muitas mulheres homossexuais do período eram voltadas para a independência da mulher. Hays, por exemplo, criou um jornal em 1847 como forma de oferecer um local para mulheres escritoras publicarem e também proporcionar uma plataforma para o discurso sobre os direitos das mulheres, incluindo melhores oportunidades educacionais e profissionais. Seu objetivo era dar uma “discussão gratuita de um assunto para o qual naquela época era impossível obter uma audiência através dos canais comuns da imprensa”. Hays e Cushman se encontraram pela primeira vez entre 1846 e 1848, e ficaram juntas por dez anos: seu caso na Europa era notório. Elizabeth Barrett Browning comentou:

“Eu entendo que ela (Cushman) e a senhorita Hays fizeram votos de celibato e de eterno apego uma a outra – elas convivem, vestem-se iguais … é um casamento feminino”.

Mas não era um casamento de fato: em 1852 Cushman foi para Itália, e começou a viver com Harriet Hosmer. Em 1857, teve outro caso com Emma Stebbins, Adelaide Anne Proctor e Theodosia Blacker.

Não são muitos filmes e livros recentes que abordam o lesbianismo vitoriano. O mais recente e famoso provavelmente é Fingersmith, escrito por Sarah Waters e que trata do lesbianismo no período vitoriano. O livro foi adaptado para um filme em 2005 pela BBC e, em 2017, foi adaptado para se passar na Coréia.

O “The Darned Club”.

No entanto, falar escrever abertamente sobre sexo era crime no período vitoriano. Assim, silêncio geral sobre a sexualidade na cultura vitoriana promoveu uma correspondência correspondente na literatura. Mas ao invés de estar completamente ausente, o desejo e a atividade homossexuais surgiram na literatura e na cultura através de formas socialmente aceitáveis ​​e fortemente disfarçadas, como a amizade romântica. Emily Dickinson e George Eliot, por exemplo, tiveram relações emocionais significativas com outras mulheres – essas amizades, como vimos acima, embora não fossem abertamente divulgadas ou aceitas pelas próprias mulheres como atração sexual por alguém do mesmo sexo, eram totalmente compatíveis com as noções vitorianas da sexualidade feminina, que era considerada quase inexistente.

Clubes apenas para mulheres também floresceram no período vitoriano e provavelmente também serviam para esconder essa convivência romântica. O “The Darned Club”, cuja foto pode ser vista acima, era um grupo de quatro mulheres: Alice Austen, Trudy Eccleston, Julia Marsh e Sue Ripley. As quatro estudaram juntas por anos e depois passavam muito tempo juntas – isso, é claro, não é evidência nenhuma de que elas eram lésbicas, apesar da pose ‘pouco convêncional’ de sua foto em grupo.

Casal Anna Moor e Elsie Dale. Ser lésbica não era crime, mas se vestir de homem sim.

A lei britânica – e a lei americana em sua sombra – mantiveram uma veemente condenação da atividade homossexual ao longo do século. Curiosamente, embora o Direito Penal condenasse relações homossexuais entre homens, não havia nenhuma lei que abordasse o lesbianismo: as autoridades pareciam considerar isso tão inimaginável ou irrelevante sequer para ser mencionado em uma condenação. Ocasionalmente, as mulheres eram processadas por se “disfarçarem” usando um vestuário masculino e, assim, usurpando das prerrogativas sociais e econômicas masculinas.

Portanto, pode-se entender que, embora as amizades femininas tivessem uma influência duradoura nas visões da identidade feminina através do encorajamento de amizades apaixonadas, essa não era a única influência na formação da identidade feminina e do lesbianismo vitoriano. Além disso, para muitas mulheres comuns e de classe baixa, não havia tempo para formar fortes amizades apaixonadas com outras mulheres, pois muitas vezes elas eram obrigadas a trabalhar. Assim, para cada mulher as amizades românticas eram diferentes e,certamente no caso da classe média e alta, foram muito influentes em relação a sua sexualidade e auto-identidade.

Bibliografia:
MILLER, Lauren. Friendships, lesbianism and identity in Victorian Britain. Acesso em 09/03/2018.
LACEY, Martha de. ‘As good as God, as clever as the Devil’: The extraordinary Victorian life (and secret lesbian trysts) of the Archbishop of Canterbury’s wife. Acesso em 09/03/2018.
ONORATO, Mary L.; EVANS, Denise. Homosexuality in Nineteenth-Century Literature. Acesso em 09/03/2018.

Uma resposta para “Amizade feminina, identidade e lesbianismo no século 19

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