Grupo de mulheres posam para uma foto em 1889 com suas bicicletas.
Grupo de mulheres posam para uma foto em 1889 com suas bicicletas.

Em 1885, o engenheiro J.K. Starley fez um grande favor ao inventar as ‘bicicletas de segurança’, muito parecidas com as bicicletas de duas rodas que vemos hoje. Antes disso, as pessoas (principalmente os homens), tinham que montar em uma bicicleta ‘comum’ com a sua gigantesca roda dianteira. As bicicletas de Stanley para mulheres foram lançadas em 1889, e abriram o esporte para mulheres como nunca antes. Produzida em massa, as bicicletas de segurança  já eram a moda na década de 1890. Os conservadores da época, no entanto, ficaram escandalizados com a visão das mulheres ostentando seus tornozelos em tal geringonça.

Década de 1880: Bicicletas com uma roda larga e outra pequena, podendo ter até dois lugares.
Década de 1880: Bicicletas com uma roda larga e outra pequena, podendo ter até dois lugares.

As bicicletas comuns do período vitoriano tinham uma larga roda na frente e uma pequena atrás, embora outros modelos de ‘bicicletas’ pudessem ter três ou quatro rodas com até dois lugares – esses modelos eram mais populares para mulheres, que nunca conseguiriam, com seu guarda-roupa vitoriano, colocar-se sozinha em cima de uma bicicleta gigante daquelas, e muito menos conseguir pedalá-las. Agora como aconteceu a primeira corrida de bicicleta para mulheres em 1868, só Deus sabe.

A Era Vitoriana foi marcada com a obsessão do culto à vida doméstica e graves restrições sobre as mulheres. Essas restrições tomavam muitas formas, incluindo os costumes sociais que muitas vezes exigiam que as mulheres fossem acompanhadas por homens quando saíssem de casa, e a falta de representação nas esferas políticas. A bicicleta trouxe mudanças radicais para cada uma dessas forças opressivas. Sem a necessidade de um transporte muito eficiente, as mulheres agora poderiam andar por quilômetros sozinhas. Logos clubes de mulheres ciclistas surgiram, o que não só forneceu uma saída social saudável, mas ajudou a criar organizações que unificaram vozes políticas do sexo feminino.

Chocante para época, saias curtas (que davam para ver os tornozelos) passaram a ser fabricadas.
Chocante para época, saias curtas (que davam para ver os tornozelos) passaram a ser fabricadas.

No início, as mulheres usavam saias longas do seu dia a dia, mas isso muitas vezes se provava uma desastrosa mistura com a bicicleta. Um vestuário especial para ciclismo começou a ser introduzido, que incluía uma chocante saia curta e os bloomers, que eram calçar largas usados por baixo de saias até o joelho.

O espartilho, várias camadas de anáguas pesadas e vestidos compridos foram substituídos também por saias com calça ou calças largas. Essa mudança radical não só melhorou a mobilidade, mas também permitiam às mulheres demonstrarem sua força física em um local público. Havia forte resistência à essas mudanças na moda, que eram atacados em jornais como uma ofensa à feminilidade e decência.

“Deixe-me dizer o que eu penso do ciclismo. Eu acho que tem feito mais para emancipar as mulheres do que qualquer outra coisa no mundo. Eu fico alegre toda vez que vejo uma mulher passeando de bicicleta”.

Susan B. Anthony, sufragista americana.

Com o típico bom-humor vitoriano, charges eram produzidas sobre mulheres com bicicletas.
Com o típico bom-humor crítico vitoriano, charges eram produzidas sobre mulheres com bicicletas.

O mercado reagiu de maneira previsível quanto às bicicletas para mulheres. Por um tempo, foram oferecidos selas para que as mulheres sentassem de lados, como selas de cavalo; e telas em formas de asas, projetadas para bloquear a visão dos tornozelos de uma senhora também foram vendidos. Para as mulheres que ainda insistiam em afrontar a decência pública, uma nova gama de produtos apareceu com selas esburacadas para eliminar “pressões prejudiciais”.

A reação mais chocante contra a Nova Mulher que o ciclismo trouxe foi feita em 1897, quando estudantes do sexo masculino da Universidade de Cambridge escolheram mostrar sua oposição à admissão de mulheres como membras plenas da universidade com o enforcamento de uma efígie de uma mulher em uma bicicleta.

Embora andar de bicicleta de forma constante se tornou importante na Europa na primeira metade do século XX, sua popularidade caiu dramaticamente nos Estados Unidos entre 1900 e 1910, com os veículos motorizados se tornando o meio preferido de transporte.

“A bicicleta de segurança preenche uma falta muito necessária para as mulheres em qualquer momento da vida. Ela não conhece a distinção de classe, estão ao alcance de todos, ricos e pobres têm a mesma oportunidade de desfrutar deste exercício popular e saudável”.

Revista americana em 1894.

Veja mais algumas fotos de mulheres vitorianas com as suas bicicletas:

Uma senhora pronta para andar de bicicleta em 1900.
Uma senhora pronta para andar de bicicleta em 1900.

1898
Mulher vestindo um ‘traje adequado’ para bicicleta, em 1898.

Senhora usando roupas de equitação em sua bicicleta, 1869.
Senhora usando roupas de equitação em sua bicicleta, 1869.

Adolescentes mostram seu desprezo pelas convenções. 1895.
Adolescentes mostram seu desprezo pelas convenções. 1895.

Duas mulheres e um menino com suas bicicletas.
Duas mulheres e um menino com suas bicicletas.

Mulher e sua bicicleta, 1896.
Mulher e sua bicicleta, 1896.

Grupo de mulheres e suas bicicletas, 1901.
Grupo de mulheres e suas bicicletas, 1901.

Uma mulher se senta na sua bicicleta, 1897.
Uma mulher se senta na sua bicicleta, 1897.

Mulher com sua bicicleta, 1896.
Mulher com sua bicicleta, 1896.

Mulher com sua bicicleta, 1899.
Mulher com sua bicicleta, 1899.

Ciclistas, 1896.
Ciclistas, 1896.

Lady Norreys e sua bicicleta, 1897.
Lady Norreys e sua bicicleta, 1897.
Bibliografia:
Bicycles: The chains that set women free“, por Bella Bathurst.
Bicycles and the Expansion of American Freedom“, por Daniel Slusser,
Psycho Ladies Bicycle: The First Bike For Women“, por Cristen Conger.
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