effie

“Effie Gray” é uma adaptação da história real que chocou a Inglaterra vitoriana: o triângulo amoroso do crítico de arte John Ruskin; sua esposa seriamente infeliz, Euphemia “Effie” Gray; e seu protegido, o pintor pré-rafaelita John Everett Millais. Estrelado por Dakota Fanning como a jovem noiva escocesa, co-estrelado por Emma Thompson e dirigido por Richard Laxton.

Ruskin, o crítico de arte mais influente da época, conheceu Effie quando ela era uma menina de 12 anos. Ele tinha 21 anos. Acredita-se que ela o ajudou a se recuperar da depressão, e ele escreveu para ela um conto de fadas, o livro “O rei do rio de ouro”. Depois, quando se casou com Ruskin em 1848, Effie tinha 20 anos e desejava deixar a rural Escócia para uma vida de sofisticação cultural em Londres.

effie (2)Os recém-casados vão viver com os pais de Ruskin, quando as coisas começam a ir de mal a pior: Mamãe e Papai mimam John, e deixam claro que Effie deve se sacrificar para que ele permaneça no altar que foi construído para ele. Então, como se conta na história popular, na noite de núpcias Ruskin ficou tão enojado dos pêlos púbicos (ou o seu cheiro ou pelo fato de que ela menstruava) de Effie que nunca a tocou. Sua união nunca foi consumada. Effie então encontra-se no limbo; sem nenhuma lugar na vida do marido; sem nenhuma utilidade na casa dos sogros. O roteiro de Thompson mostra como suas opções são limitadas: a monstruosa Sra. Ruskin não a deixa costurar as camisas do marido, nem ajudá-la no jardim. Ela não tem o consolo das atividades intelectuais do marido e, graças a Ruskin, também não tem nenhum filho para cuidar. Effie não é uma trágina heroína como Anna Karenina, mas apenas uma esposa vitoriana infeliz.

Em um jantar, Effie encontra a simpática Lady Eastlake, que fala sobre os miseráveis primeiros dias de casamento com Sir Charles – mas a diferença é que eles conseguiram consertar seu casamento. Em uma atuação sutil e afetada, Greg Wise consegue fazer com que seja possível sentir o mínimo de simpatia por Ruskin – ele nos dá a sensação de que o personagem é tanto uma vítima quanto Effie. Já Fanning capta a vitalidade e o humor de Effie e também sua depressão, durante a transformação que ela sofre tendo Ruskin como marido.

No meio do filme, há um interlúdio pitoresco do casal em Veneza. Ruskin admira a arte local, mas lamenta o hedonismo e a decadência da cidade – fazendo uma alusão a Effie. Pela primeira vez, a jovem esposa tem um pouco de diversão em sua vida, e Ruskin, como era de se prever, nem nota que as travessuras de sua esposa provocam fofocas maliciosas. E nem, de volta a Londres, ele percebe o quão doente e abatida Effie está.

Sobre essa famosa não-consumação, a própria Effie Grey escreveu que seu marido

“alegou várias razões, o ódio de crianças, motivos religiosos, de preservar a minha beleza e, finalmente, neste último ano ele me disse a verdadeira razão… que ele tinha imaginado as mulheres bem diferentes do que ele viu que eu era, e que essa era a razão pela qual ele não fez de mim a sua esposa – porque ele ficou desgostoso com a minha pessoa”.

Já Ruskin teria replicado

“Pode-se achar estranho que eu poderia me abster de uma mulher que para a maioria das pessoas era tão atraente. Mas embora seu rosto fosse bonito, sua pessoa não era formada para exercer a paixão.”

Felizmente para Effie, no entanto, foi possível encontrar uma solução na mais básica das leis medievais da Europa: anulação do casamento pela não-consumação. Após ter se casado com Millais (todas as cenas deles na ilha são adoráveis) – que aparentemente não via nada errado com o corpo de Effie – o casal teve 8 filhos.

Quanto aos aspectos mais técnicos do filme – o figurino, a fotografia, a direção – acredito que superou minhas expectativas. A mudança que ocorre em Effie nas cenas após a cabana, e quando ela decide que irá deixar seu marido com o auxílio de  Lady Eastlake, são surpreendentes. No entanto, também seria ótimo que o filme talvez tivesse sido menos sobre o período de casamento com Ruskin e mais sobre sobre a humilhação pública apís sua acusação de impotência, assim como a sua reação a esses escândalos.

Bibliografia:
MACNAB, Geoffrey. “Effie Gray, film review: Emma Thompson’s story of John Ruskin’s wife is bleakly fascinating“. Acesso em 4 de Julho de 2016.
TURAN, Kenneth. “‘Effie Gray’ paints a poignant portrait of Victorian era“. Acesso em 4 de Julho de 2016.
NEUMAIER, Joe. “‘Effie Gray’ review: Dakota Fanning miscast as Euphemia Chalmers, but Emma Thompson performs well in movie“. Acesso em 4 de Julho de 2016.
CALLANHAN, Dan. Effie Grey. Acesso em 4 de Julho de 2016.
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