Era Vitoriana

Primeiro site brasileiro dedicado ao período Vitoriano, datado de 1837 a 1901.

Conheça a verdadeira história de amizade entre a Rainha Vitória e Abdul Karim

Com 83 anos, Judi Dench reinará novamente como Rainha Vitória, exatamente duas décadas depois de ter retratado a monarca em Sra. Brown – uma atuação que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz e prêmios do BAFTA e Globo de Ouro. O filme, que estreiará em setembro de 2017, conta a história de amizade entre a rainha viúva, então com 81 anos, e Abdul Karim, um jovem indiano de 24 anos que trabalhava como funcionário em uma prisão em Agra, na sombra do Taj Mahal.

Nascido em uma família muçulmana, com um irmão mais velho e quatro irmãs, Karim trabalhava como um funcionário de vernáculo na prisão. Os prisioneiros de lá eram treinados e mantidos empregados como tecelões como parte de sua reabilitação: em 1886, 34 condenados viajaram a Londres para demonstrar suas habilidades em uma exposição, que foi visitada pela Rainha. Ela demonstrou que tinha um interesse de longa data em seus territórios indianos, e que desejava empregar alguns criados indianos para seu Jubileu, pedindo que John Tyler, responsável na organização da viagem dos prisioneiros, recrutasse dois atendentes. Assim, Karim recebeu um treino apressado nos costumes e língua inglesa, e foi enviado para a Inglaterra juntamente com outro empregado, Mohammed Buksh.

A primeira tarefa dos dois foi servir a Rainha em seu café da manhã em Windsor, em 23 de Junho de 1887. A Rainha escreveu sobre isso em seu diário: “O outro é muito mais jovem e mais magro (que Buksh), alto e com um semblante sério. Ambos beijaram meus pés“. Cinco dias depois, ela anotou que :“os índianos sempre esperam para fazer algo, e o fazem bem e silenciosamente“. Em agosto, ela escreveu: “Estou aprendendo algumas palavras em hindustani para falar com meus criados. É de um grande interesse para mim, tanto para a língua quanto para as pessoas que eu, naturalmente, nunca tive contato antes”. No mesmo mês, ela comeu um ‘excelente curry‘ feito por um dos criados.

Cena do filme Victoria e Abdul (2017).

Vitória passou a gostar cada vez mais de Karim, ordenando que ele tivesse mais aulas de inglês. Depois, ele se queixou que sendo um funcionário na Índia, ser um garçom na Inglaterra era abaixo de sua posição. Assim, ela o promoveu para o cargo de ‘Munshi’ – uma espécie de secretário. Em seu diário, a Rainha escreveu que fez essa mudança para que ele não fosse embora: “Eu particularmente desejo manter seus serviços enquanto ele me ajuda a estudar hindustani, que me interessa muito. Ele é muito inteligente e útil”. Após a morte de Vitória, todas as cartas trocadas entre os dois e suas fotografias foram destruídas – uma delas era dele em sua mesa de secretário.

As poucas cartas sobreviventes da Rainha mostram que suas conversas eram de teor filosóficas e políticas. Karim passou a ser responsável pelos outros criados indianos. Elogios a ele eram cada vez mais frequentes em seu diário:

“Eu sou muito afeiçoada a ele. Ele é tão bom e gentil e compreende tudo o que eu quero, é um verdadeiro conforto para mim.”

Apesar de precisar manter uma pose séria e digna perante os outros, a Rainha escreveu que ele era ‘muito simpático e alegre com as empregadas, gargalhando e até fazendo piadas – agora mesmo ele as convidou para ir e ver todas as suas belas coisas, oferecendo bolo e frutas para comer’.

Em novembro de 1888, Karim recebeu uma licença de quatro meses para retornar a Índia, onde visitou seu pai. Foi aí que começou o descontentamento: Karim informou a Rainha que seu pai tinha esperanças de se aposentar e conseguir uma pensão, e que seu ex-empregador, Tyler, procurava ser promovido. Como resultado, Victoria escreveu ao Vice-rei da Índia, Lorde Lansdowne, exigindo que o pai de Karim tivesse uma pensão e que Tyler fosse promovido. No entanto, o Vice-rei estava relutante em aprovar a promoção porque Tyler tinha uma reputação de comportamento sem-tato e com comentário mal-humorados.

Retrato de Abdul Karim, em 1888, por Rufolf Swoboda.

Influenciada por Karim, Vitória continuou a escrever ao Vice-rei sobre a questão da promoção de Tyler e da administração da Índia. Ela expressou reserva sobre a introdução de conselhos eleitos com base de que os muçulmanos não ganhariam muitos lugares por serem minoria, e pediu que as festas hindu fossem reorganizadas para não entrarem em conflito com as muçulmanas.

Logo, Karim começou a ser alvo de ciúmes e descontentamento entre os membros da Casa Real, que normalmente nunca se misturavam socialmente com índios abaixo do posto de príncipes. A Rainha esperava que eles acolhessem Karim, um indiano de origem comum, no meio deles – e eles não estavam dispostos a aceitar isso. Em 26 de abril de 1889, o filho de Vitória, Albert Edward, hospedou um entretenimento em sua casa em Sandringham. Karim descobriu que tinha recebido um assento junto dos demais criados – insultado, ele se retirou para o seu quarto. A Rainha o defendeu, afirmando que ele deveria ficar juntos dos outros funcionário.

Carollyn Erikson, biógrafa da Rainha, descreveu que:

O rápido avanço e a arrogância pessoal do Munshi inevitavelmente levaria sua impopularidade, mas a sua raça que fez todas as emoções correrem mais forte. O racismo era um flagelo da época – um indiano de pele escura ter um posto quase ao nível de servos brancos da Rainha era quase intolerável. Ele comer na mesma mesa que eles e compartilhar de sua vida diária era um ultraje. No entanto, a Rainha estava determinada a impor harmonia em sua casa. O ódio pela raça era intolerável para ela, e seu ‘caro e bom’ Munshi merecia nada além de respeito.

 

A Rainha Vitória e seu servo indiano, Abdul Karim. Julho de 1893.

Durante seu período de serviço com a Rainha, Karim teve muitas honras: viajou com a família real pela Europa, encontrando monarcas e primeiro ministros. Ele a ensinou a escrever em urdu e hindi, apresentou-a ao curry – que se tornou um item no menu diário – e eventualmente tornou-se seu secretário. Ele e sua esposa receberam residências em todas as principais propriedades reais do Reino Unido e na Índia. Ele foi autorizado a carregar uma espada e usar suas medalhas na corte, além de ter permissão para trazer membros da família da Índia para a Inglaterra. Ele tinha acesso as melhores posições em banquetes e óperas reais, além de ter uma carruagem privativa.

Karim era considerado por muitos uma pessoa arrogante: ele se recusava a viajar com outros indianos e se apropriou de um banheiro de uma das empregadas. Ele se recusou a comparecer ao casamento da neta de Vitória porque seu pai havia recebido um assento nas galerias dos criados. Os conselheiros de Vitória temiam a associação de Karim com Rafiuddin Ahmed, um ativista indiano residente em Londres – eles suspeitavam que Ahmed poderia extrair informações confidenciais de Karim. Karim foi deixado sob vigilância ‘discreta’. Em março de 1897, os membros da Casa da rainha insistiram que Karim não fosse na festa real e disseram que iriam se demitir se isso acontecesse. Quando uma das criadas da Rainha a informou sobre isso, a Rainha jogou todo conteúdo da sua mesa no chão, em fúria – ela acreditava que a desconfiança geral com Karim era motivada pelo preconceito racial e ciúme.

Depois de várias indas e vindas da Índia, em 1892 Karim foi para a Inglaterra com sua esposa e sua sogra. Vitória anotou em seu diário que estavam completamente vestidas, com exceção de dois buracos no véu para seus olhos. Sendo mulher, Vitória pode vê-las sem os véus. Karim e sua família foram alojados em casas de campo em Windsor, Balmoral e Osborne. A Rainha os visitava regularmente, trazendo várias convidadas, incluindo a Imperatriz da Rússia e a Princesa de Gales. Em uma dessas visitas, a Marie Mallet, esposa de um dos funcionários da Rainha, registrou:

Acabei de ver a esposa do Munshi. Ela é gorda e não é desagradável, tem uma delicada cor de chocolate e estava maravilhosamente vestida, com anéis em seus dedos, anéis em seu nariz, um espelho de bolso em seu polegar e cada parte viável de sua pessoa com correntes penduradas, braceletes e brincos, com um véu rosa em sua cabeça bordado com ouro pesado e esplêndido traje de seda e cetim em sua pessoa. Ela fala inglês de maneira limitada.

 

 

Muitos relacionam a figura de Karim com a de John Brown (1826 – 1883) – um criado escocês e favorito da Rainha Vitória, sendo apreciado por sua competência e companheirismo, e que causou muito ressentimento por sua influência e informalidade com a Rainha. Até sua morte em 1901, a Rainha escreveu diversas cartas para Karim onde assinava como ‘sua mãe amorosa‘ e ‘sua amiga mais próxima’. Em algumas ocasiões, ela assinava a carta com beijos, que era algo muito incomum. Acredita-se que era inquestionavelmente um relacionamento apaixonado, mas em diferentes camadas: como uma mãe e seu jovem filho.

Diferente do que alguns dizem, é muito improvável que os dois tenham sido amantes: embora eles tenham ficado por diversas noites na mesma cabana nas montanhas onde a Rainha ficava com Brown. Quando o Príncipe Albert morreu, Vitória disse que seu servo escocês era seu marido, amigo íntimo, pai e mãe: é provável que Abdul tenha desempenhado um papel semelhante. Com mais de 80 anos, a Rainha Vitória estipulou que Karim deveria ter a honra de estar entre as principais figuras de honra em seu funeral no Castelo de Westminster – ela deu especificamente esta instrução, embora soubesse que provocaria uma forte oposição: se a família real odiava Brown, abominava Abdul Karim.

Não confiando em seus parentes e na Casa Real para cuidar de Karim no caso de sua morte, a Rainha ordenou uma concessão de terras para ele na Índia – resultando em mais um problema, uma vez que concessões só poderiam ser dadas a soldados de longo serviço, e que havia pouca terra do governo em Agra. Algum tempo depois, Karim conseguiu a doação de terra para seu pai e uma para si mesmo.

Rainha Vitória, seu cachorro Noble e o Munshi, Abdul Karim, em fotografia tirada em Balmoral, 1894.

Assim como mostra o primeiro trailer do filme, Vitória foi alvo de rumores de que poderia estar insana por conta de sua nova amizade. Mas não durou muito: Vitória morreu em 1901. Logo após o acontecido, Eduardo VII demitiu Karim, encerrando suas ligações na Inglaterra e o enviou de volta para Índia. No entanto, ele permitiu que Karim fosse o último a ver Vitória antes que seu caixão fosse fechado, e participar da procissão fúnebre. Quase toda a correspondência entre Vitória e Karim foi queimada sob as ordens de Edward. Em 1905, George, o Príncipe de Gales, visitou a Índia e escreveu que Karim não ficou mais bonito e que estava engordando, e que antes era mais civil e humilde. No entanto, ele vivia silenciosamente e não dava problemas. Ele morreria aos 46 anos, em sua casa em Agra, em 1909. Rapidamente, comissários ingleses foram para sua casa recuperar qualquer correspondência restante entre ele e a Rainha, que foi confiscada e enviada para o Rei. Isso irritou o Vice-rei indiano e os funcionários, que desaprovaram a apreensão e recomendaram que as cartas fossem devolvidas. Eventualmente, o Rei devolveu quatro, com a condição de que só seriam enviadas após a morte da primeira esposa de Munshi.

Bibliografia:
BAMIGBOYE, BAZ. Dame Judi is back as Queen Victoria in new film about monarch’s friendship with young Indian. Acesso em 31 de maio de 2017.
LAWSON, Alastair. Queen Victoria and Abdul: Diaries reveal secrets. Acesso em 31 de maio de 2017.
Abdul Karim (the Munshi). Acesso em 31 de maio de 2017.
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2 comentários em “Conheça a verdadeira história de amizade entre a Rainha Vitória e Abdul Karim

  1. Fabiane Paixão
    13 de junho de 2017

    Ai muitooooo obrigada por esse maravilhoso texto, estava muito ansiosa pra descobrir mais sobre a história entre a rainha e esse servo indiano!

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  2. Léo Mehret
    13 de junho de 2017

    Muito bom. Fica no ar até que ponto ele usou a amizade. Mas acho que era uma amizade sincera.

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Publicado às 31 de maio de 2017 por em Personalidades e marcado , , , , , .

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